por Andrea Pavlovitsch

Começar de novo

Existe um momento na vida em que nos vemos numa encruzilhada. No qual todos os caminhos que escolhemos até então, não parecem mais fazer muito sentido. A vida começa a se apresentar diferente e isso pode ser muito, muito assustador para a maioria das pessoas. Inclusive para mim. Não é exatamente um momento confortável.

Sair da zona de conforto. A zona de conforto é aquele tanto que você controla na sua vida. A sua casa, os seus amigos, seus parentes. São as ruas nas quais você costuma passar, a feira que frequenta, as pessoas que sempre vê. É aquele naco de vida que você se acostumou a ter e começa a achar, em determinado momento, que é aquilo mesmo. Que não tem mais em lugar nenhum e que talvez você devesse simplesmente aceitar e parar de querer tanto e mais da vida. Mera ilusão.

Estava me sentindo assim. Achando que alguns aspectos não mudariam mais. Que eu tinha tido a minha cota de felicidade e era hora de parar e, agora, fazer o trabalho sujo. Aquele trabalho confortável que não nos faz bem, mas que pelo menos, nos mantém vivos. Ou não. Se é que você chama de manter vivo estar numa situação que não se gosta. Que não se quer. No meu caso, meu eterno problema de peso. Eu não estava conseguindo ver uma saída. Não via uma luz no fim do túnel. Estava com tanta raiva de mim. Raiva por ter me deixado levar pela tristeza de um momento ruim da minha vida. Raiva por ter me deixado passar por isso e pior, raiva por ter deixado isso me engordar. De novo. Um dia me olhei no espelho e vi uma pessoa que não sou eu. Definitivamente.

Não é só o peso. É tudo. Mas o peso, no meu caso, é meu norte. É a tempestade que me mostra um desequilíbrio. Acho que quando eu encarnei pedi aos céus algo que me mostrasse que a coisa estava ficando feia e ganhei uma tendência a engordar. E, de fato, quando começo a perder o controle sobre a comida é porque estou perdendo o controle sobre mim mesma. Não que precisamos só comer arroz integral, afinal de contas, comer é prazer também. Mas equilibrar com momentos de sopinhas e feijoadas. Não só a parte das feijoadas. Temos um limite diário de calorias, assim como temos um tanto no banco e não podemos querer gastar mais. Então, precisa disso mesmo. Percebi que não tinha o menor ânimo pra fazer uma dieta. Eu pensava “para quê? Se tudo o que eu fiz até hoje foi tentar controlar o meu peso e me vejo aqui, de novo, enorme e me sentindo feia, porque devo recomeçar?” Não, eu não tenho autoestima baixa por ser gordinha, mas quando passo de certo limite (no meu caso, passei de todos os limites aos quais já tinha chegado) isso mexeu comigo, sim. Estava demais. E eu estava me sentindo de menos.

Sentindo menos no sentindo de não sentir mais nada. Acho que passei a achar que deveria simplesmente me esquecer. Perdi a vontade de me arrumar, perdi o gosto pela minha maquiagem e pelos meus perfumes, nada estava fazendo muito sentido. Estava me sentindo uma farsa ambulante, dando conselhos para pessoas quando eu mesma não seguia os meus. Foi aí que precisei parar. Sai de cena por 10 dias. Fui para um spa, mais pelo descanso do que pela dieta já que 10 dias não representariam nem 10% da minha necessidade de perda de peso, mas para desligar. E descobri a imensa importância que isso tem.

Vivemos num mundo de gente deslocada de si mesma. Numa sopa gigante de distrações e de ordens ao nosso inconsciente. Está feliz? Venha comemorar comendo hambúrguer e batata frita por apenas R$5. Está triste? Encha a cara de gordura trans e saia muito melhor e, de fato, você sai melhor. Mas o sentir-se bem dura 12 segundos, até chegar ao carro e ver que sua barriga dói de tanta comida. Não é felicidade. É se enganar. O meu caso é com a comida, mas poderia ser com qualquer outra coisa. Poderia ser bebida, drogas, revistas, compras, televisão, seriados de TV, internet. Qualquer coisa que nos distraia da nossa realidade interna, que nos deixe fora de nós e que nos faça ficar nas mãos das pessoas. Nas mãos de quem quer mandar e controlar o que comemos, o que usamos e como, principalmente, pagamos por tudo isso. Até a indústria da dieta com suas promessas de perda de peso: “Coma num dia. Vomite todo no outro.” Prático, né!

Na verdade, a única maneira é não deixar se distrair. Orai e vigiai, disse Jesus. Não se perca de você mesmo, do que você é. Não deixe o trabalho e a rotina engolirem você e te transformar em um zumbi que não sente mais nada, só fome! A comida te distrai, te deixa inconsciente do que está fazendo. E ficando inconsciente você não é mais você. Aí, um dia você olha pra você de verdade,depois de muito sofrimento, e vê uma obesa mórbida , um drogado, um viciado em jogo. Um nada. Estou saindo dessa. Já eliminei 8 quilos e estou de olho em mim. Voltei a meditar, a fazer exercícios físicos. Voltei a cantar e até estou pensando em me apaixonar de novo... Depois que me apaixonar de novo por mim, claro! Recomeçar é a chance que nos damos de sermos felizes de verdade! Pense nisso!

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.