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por Andrea Pavlovitsch

Beleza oculta - Resistência

Assisti ao filme “Beleza Oculta”. E sim, vou escrever bastante sobre ele porque dá para tirar vários aprendizados interessantes, eu recomendo bastante. Trata-se da história de um homem (Will Smith, sempre sensacional) que perde a filhinha de seis anos e entra numa imensa depressão. Tempos depois é visitado pelas três abstrações que ele sempre acreditou permearem a sua vida – morte, amor e tempo. O filme tem muitas reviravoltas e com elas as mensagens respectivas. Mas no final de tudo o que vale mesmo é a beleza oculta das coisas.

Nada pode ser mudado. No fundo vivemos num universo de escolhas que, geralmente, não são nossas. Tem tudo a ver com o que venho pensando há alguns dias, de simplesmente aceitar a vida. A depressão dele se dá, não só pela perda da filha, o que geraria uma depressão “naturalmente”, mas pela não aceitação e pela resistência dele a isso.

Jung, psicólogo que preconizou a psicologia analítica disse “O que resiste, persiste”. Ou seja, tudo aquilo que você não aceita, que você resiste a entender ou a mudar ou mesmo a só aceitar, como no caso, nos gera um sofrimento muito maior, muito mais profundo do que se simplesmente deixássemos pra lá. A resistência é uma força por si só, que nos aprisiona ao objeto e nos faz repassar, dia após dia, um sofrimento que poderia ter terminado se simplesmente aceitássemos, como se ficássemos preso à Matrix.

Em uma das cenas, em que ele conversa com a morte, ele fala claramente que, apesar de todas as frases feitas que ele ouviu sobre a perda da filha, ela não estava lá segurando a mão dele (aliás, uma cena tocante) e que ele não aceitaria isso. Aceitar é entender que existe uma inteligência que é maior do que a nossa compreensão pode ter.

Não tem o que dizer para um pai ou uma mãe que perdeu um filho. É, de fato, uma ferida que nunca cura. O exemplo da pior perda possível é usado com louvor no filme, justamente por isso. De todos os sofrimentos, quem tem filhos sabe que esse é ou seria o pior. Mas mesmo nessa extremidade da dor, ainda é possível enxergar o todo. Ainda é possível, mesmo que demore, mesmo que precise de muito choro, perceber a beleza.

A beleza de ter estado com a pessoa pelo tempo necessário. A beleza de ter conseguido viver um momento único da humanidade, no caso aqueles seis anos daquele pai. A beleza de perceber outras coisas, outras questões que extrapolam completamente o nosso ego. Se reencontrar no caminho, se refazer, perceber que não será possível ser a mesma pessoa depois disso.

Isso vale para qualquer perda, isso vale de um fim de namoro a morte trágica de um filho. É o caminho que sempre importa e o nosso sofrimento é sempre por querer se apegar ao que foi, aquele quantum de momento que queríamos que durasse para sempre. Nosso apego e nossas resistências criam um universo de dor e sofrimento que é “magicamente” resolvido quando aceitamos. Para mim, essa é a beleza maior.

A saudade não termina. Mas o amor não pode morrer. Ele não é enterrado com o ente querido ou é levado porta afora pelo amor da sua vida. Ele permanece com você, mesmo quando ainda é dor. E mesmo que você sinta aquilo para sempre, ainda é preciso seguir em frente. Ainda é preciso buscar dentro de si o motivo de ainda estar por aqui. Porque isso não é uma escolha sua, e sim da vida. Mas esse é o tema de um outro artigo.

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.