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por Jacques Theron

Caminho de Santiago - Parte 2

Uma realidade separada

A intenção sobrenatural do Caminho de Santiago foi criada por povos pré-históricos, como os Celtas, e continuou na forma de uma rota cristã. Esta peregrinação existe neste mundo, mais não é deste mundo. O Caminho é uma entidade separada, um microcosmo no qual as regras da realidade funcionam diferentemente.

Tendo percorrido o Caminho seis vezes - sozinho, e com os grupos espirituais que levo - descobri alguns aspetos muito interessantes que ilustram o efeito outro mundo que a peregrinação tem:

1 - Bloqueios energéticos são liberados mais rapidamente. No Caminho, as regras da realidade do vigésimo primeiro século são menos válidas. Contatar o eu verdadeiro não é só teórico, nem uma serie de realizações internas. A luz do Caminho faz emergir as impurezas obscuras do subconsciente, revelando todos os problemas do ego: maus hábitos, comportamento destrutivo, mecanismos repetitivos que escondem problemas mais profundos da personalidade, e a recusa de enxergar características negativas em si mesmo.

Questões pessoais sem exceção vêm para confrontar o peregrino: você pode encontrar pessoas inspiradoras ou as que têm uma mensagem para você; isso se não encontrar as que o enfurecem sem razão; talvez você experimente intensos desafios físicos ou emocionais. Quando um padrão negativo da vida se repete no Caminho, é a força da intenção espiritual da peregrinação que está oferecendo uma cura profunda para bloqueios emocionais.

Os medos são pessoais: ou se personalizam em um outro indivíduo que provocará reações fortes em você, ou através de outros agentes de cura que se encontram pelo caminho. Anna, uma participante de um dos meus grupos, atraía a atenção sexual de vários homens locais enquanto caminhava. Não se pode duvidar que havia uma mensagem mais profunda nesses acontecimentos, e com a investigação maior da sua situação, revelou-se que ela teve uma separação traumática alguns anos antes, e que estava ainda resistindo a relações românticas. Seu medo de relacionamentos e a sua energia sexual reprimida criavam bloqueios que tiveram que expressar-se antes que uma cura fosse possível.

O poder do Caminho fez que eles saíssem do subconsciente através dos acontecimentos e pessoas no caminho. Na minha primeira peregrinação em 2001, um peregrino chamado Martin confrontou vários demônios pessoais que se personificaram em um outro peregrino chamado Robert, que tinha uma personalidade particularmente dominante e insistia em seguir Martin e falar com ele constantemente durante todos os dias da jornada.

Depois de duas semanas de irritação, Martin percebeu que tinha que sair daquela situação que se tornou desagradável e eu precisava definir claramente os limites, e descobriu o quanto aquele tipo de confrontação era difícil para ele. Mas o momento certo chegou e em um bar em Ponferrada - uma cidade construída pelos templários - Robert quis andar, e começou a apressar Martin, este tentava explicar - um pouco nervoso - que não queria caminhar mais com ele, então vários amigos peregrinos chegaram por acaso, quase miraculosamente, e logo sete pessoas estavam ao seu redor. Com esse apoio Martin conseguiu resolver não só a situação com Robert, mas, no contexto mais amplo da sua evolução, foi uma oportunidade de transformar o medo de confrontações. Isso foi relatado nos trabalhos coletivos que fazemos ao final de todos os dias na jornada.

2 - Um lugar onde reina o eterno.

O Caminho, como já disse, se desenvolveu para refletir a Via Láctea, que representa princípios espirituais e eternos - como a morte do eu antigo e o renascimento espiritual no final da peregrinação. Quando se entra um espaço eterno, as preocupações cotidianas que enchem a mente desaparecem e surge a possibilidade de se ter percepções importantes e mesmo receber visões.

No Caminho Francês, os carros passam ao lado do peregrino que anda, e todos compram provisões em supermercados modernos, mas o mundo do Século 21 parece bem longe. Uma das minhas experiências espirituais mais intensas foi, estranhamente, em uma estação de gás, onde a combinação das pessoas, a musica tocada no bar e a gentileza do dono provocou um sentimento forte da beleza de viver e que o sagrado existe em todos lugares.

Em uma outra situação, meus pés estavam doloridos e me descansei um pouco em um campo verde e tranquilo. De repente um velho curandeiro vestido de roupa um pouco antiga apareceu e me levou a uma fonte que ele dizia ter poderes curativos, onde deveria molhar os meus pés, o que fiz imediatamente.

Ele cantava canções de cura enquanto chegava o seu rebanho de cabras com sinos no pescoço. Me perdi na eternidade desse momento que poderia acontecer em qualquer século, e logo depois percebi que meus pés já não doíam. Experiências mais deste mundo - mas que não dão menos felicidade - que exprimem o eterno do Caminho são os vários festivais que acontecem na rota, que fazem lembrar a historia desta peregrinação.

O exemplo mais espetacular é o festival medieval (Justas Medievales) no povoado chamado Hospital de Orbigo, onde todo mundo se veste em roupas antigas e onde acontecem eventos como concertos de musica medieval, danças, comidas de época e combates de lanças entre cavaleiros.

3 - Interação intensa.

No Caminho de Santiago, é normal passar a maior parte do dia andando e meditando sobre a vida. Amizades significativas se desenvolvem mais rápido que o normal. Mesmo se no inicio a conversa cotidiana envolve bolhas e acontecimentos interessantes vistos no trajeto, a pergunta mais comum é: Porque está fazendo o Caminho? Todo mundo tem estórias interessantes para contar, mas em geral, os peregrinos estão buscando mais significado nas suas vidas, e querem achar a inspiração para fazer mudanças importantes.

A facilidade de forjar amizades talvez se explique por causa da euforia da experiência da peregrinação, compartilhar dificuldades físicas e emocionais ou porque os participantes têm mais tempo para interessar-se nos outros. Enfim, as amizades que fiz no Caminho sempre foram profundas, e muitas vezes viraram ligações que duram até hoje.

O status social e outras divisões entre as pessoas são esquecidos, e uma interação verdadeira se faz. Muitas vezes pensei que o Caminho permite que a bondade instintiva do ser humano surja entre as pessoas, um instinto deixado de lado na sociedade urbana moderna.



Peregrinação: uma jornada mitológica

A peregrinação a Santiago de Compostela é uma viagem sagrada para conhecer melhor a si mesmo e a sua verdade pessoal. Também é uma maravilhosa viagem a um dos mais belos lugares da Europa, o norte da Espanha. No Caminho, além da beleza do campo, você conhecerá a arquitetura histórica e terá tempo livre para contemplar a sua realidade espiritual. Cada pessoa caminhará no próprio ritmo, mesmo assim cada dia terá trabalhos coletivos de desenvolvimento espiritual que visam entrar em contato mais profundo com a experiência proporcionada pela jornada.

A distância média andada a cada dia é de 17 quilômetros, mas não é preciso um grande preparo físico, a minha experiência tem mostrado que pessoas de diversas idades e preparação conseguem completar o trajeto sem dificuldades, pelo contrário, a energia aumenta ao longo do caminho. Você precisa simplesmente o desejo de acabar o processo e a vontade de aceitar a nova vida que esta viagem vai te propor.

A fusão do mito e lugar

As civilizações antigas percebiam a divindade em todos os lugares, mas algumas regiões de beleza extraordinária ou força energética eram consideradas os lares dos deuses poderosos. Logo depois, relicários/templos foram construídos nesses locais, e alguns deles viraram grandes centros de culto ou de oráculos. Apolo e Artêmis nasceram na ilha de Delos, segundo os gregos, o que fez que essa ilha minúscula se tornasse um centro de peregrinação e de comércio. A famosa escola dos mistérios de Elêusis - que atraiu os maiores homens da época clássica - era o centro de uma procissão anual que terminava em ritos de iniciação capazes de transformar as vidas dos participantes. A caverna em Elêusis era importante porque os gregos acreditavam que ela era o portão do Mundo subterrâneo onde a deusa Proserpina foi seqüestrada pelo deus Plutão. Esse lugar era intimamente ligado à idéia de renascimento.

Peregrinações cristãs começaram aproximadamente em 300 DC e eram conduzidos aos locais associados com a vida de Jesus. Não demorou muito tempo para os lugares ligados aos apóstolos e santos se tornarem centros de peregrinação; e os santuários católicos eram geralmente construídos nos lugares sagrados das religiões anteriores. Santiago de Compostela é um entre muitos exemplos: escavações abaixo da catedral revelaram um templo romano e abaixo desse um outro, céltico, ainda mais antigo.

Na alta Idade Média, relíquias eram um motivo importante para peregrinação; catedrais e igrejas importantes foram construídas para mostrá-las. O poder mágico das relíquias é considerado uma maneira de se unir com a energia ou consciência do santo. O tumulo de São Francisco de Assis, por exemplo, é uma das destinações mais populares para Cristãos, não só por que os vestígios dele estão lá, mas também por que ele participou direitamente na construção da igreja. O espaço físico é então imbuído com sua energia.

A geografia sagrada do caminho de Santiago

As rotas da fé cristã mais importantes na Europa medieval conduziam para Jerusalém, Roma e Santiago de Compostela. A última destinação era considerada a mais popular e a mais sagrada. Apesar de que Santiago era, e ainda é uma cidade pequena que fica na Galicia, no norte da Espanha, sua catedral é magnífica e abriga as relíquias do evangelista Santiago. Desde a Idade Média centenas de milhares de peregrinos caminharam os 700kms do percurso. Em 1985, a UNESCO declarou o Caminho de Santiago um Patrimônio Mundial.

O que não é bem conhecido é que quando as peregrinações cristãs a Santiago-de-Compostela começaram no século IX, a rota já existia aproximadamente há dois mil anos. O Caminho completo - que se inicia em St. Jean Pied-de-Port (na fronteira francesa) e acaba em Compostela - é como uma constelação de povoados e os lugares sagrados têm nomes de estrelas e animais totêmicos como o cão e o lobo; o último é uma referência clara à estrela Sirius (sobre qual falaremos mais adiante).

A palavra Compostela é uma indicação muito reveladora da intenção original da rota: para refletir a Via Láctea no plano terrestre. O nome pode ser interpretado de várias maneiras. A tradução mais óbvia é campus stellae (campo da estrela), uma referência à luz que supostamente indicou a tumba de Santiago quando ela foi descoberta no século IV. Mas esta palavra latina também evoca o Caminho como um reflexo terrestre da Via Láctea. Os povos pré-históricos reverenciavam a abóbada do céu noturno. Quase todas estas culturas erigiam estruturas megalíticas e círculos de pedra para indicar os pontos de energia ou de luz, e também para representar as constelações. A Via Láctea era o caminho seguido pelos heróis e imortais para alcançar os palácios celestiais dos deuses; os celtas o chamavam a arca do Lugh (deus da luz). Esta cultura demarcava vários outros caminhos sagrados na Inglaterra e na França indo na direção oeste - onde morre o sol diariamente. Mas isto não e tudo. Foi também observado que a Via Láctea termina na constelação de Sirius, que é a estrela mais brilhante do céu, conhecida como a Estrela do cão. A importância deste astro se evidencia nos nomes relacionados aos cães na região, e mais tarde, na simbologia da peregrinação, um cão precede o Santiago no seu caminho.

O Caminho pode então ser visto como uma rota que conduz peregrinos através de níveis de consciência representados por estrelas, e eles acabam a jornada na origem divina simbolizado por Sirius, que revela nossa luz interior na crença esotérica. Outra interpretação da palavra compostela se relaciona ao termo alquímico composto, uma referência à Opus, que é o trabalho alquímico no laboratório medieval. A aparência de uma estrela branca na superfície do composto era sinal de que a primeira parte do grande processo de transformação fora atingida (há uma imagem similar a essa luz em cima da tumba do evangelista Santiago). O alquimista Fulcanelli escreveu que para o peregrino, a espetacular visão da catedral ao chegar na cidade de Santiago é o sinal de que a primeira parte da viagem se realizou; depois, terá que voltar para casa, e então aprofundar e integrar a si mesmo os ensinamentos do caminho. No fim da peregrinação, o peregrino recebe a benção mística de Santiago, confirmado pela marca luminosa que brilha em cima da tumba.

Os templários sem duvida reconheciam as intenções dos povos anteriores ao cristianismo que percorreram o caminho, visto que eles construíram igrejas e capelas cristãs sobre lugares historicamente poderosos. Existem várias igrejas em que se aplicam os princípios da geometria sagrada.

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Jacques Theron

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Jacques percorreu pela primeira vez o caminho de Santiago-de-Compostela na Espanha em julho de 2001. A experiência foi tão profunda que ele organiza desde então uma viagem anual que inclui um processo espiritual no local, no ‘Caminho das Estrelas’ com outros peregrinos. Em 2008 ele começou a programar viagens espirituais para a América do Sul.