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por Jacques Theron

Caminho de Santiago - Parte 1

Peregrinação: uma jornada mitológica

A peregrinação a Santiago de Compostela é uma viagem sagrada para conhecer melhor a si mesmo e a sua verdade pessoal. Também é uma maravilhosa viagem a um dos mais belos lugares da Europa, o norte da Espanha. No Caminho, além da beleza do campo, você conhecerá a arquitetura histórica e terá tempo livre para contemplar a sua realidade espiritual. Cada pessoa caminhará no próprio ritmo, mesmo assim cada dia terá trabalhos coletivos de desenvolvimento espiritual que visam entrar em contato mais profundo com a experiência proporcionada pela jornada.

A distância média andada a cada dia é de 17 quilômetros, mas não é preciso um grande preparo físico, a minha experiência tem mostrado que pessoas de diversas idades e preparação conseguem completar o trajeto sem dificuldades, pelo contrário, a energia aumenta ao longo do caminho. Você precisa simplesmente o desejo de acabar o processo e a vontade de aceitar a nova vida que esta viagem vai te propor.

A fusão do mito e lugar

As civilizações antigas percebiam a divindade em todos os lugares, mas algumas regiões de beleza extraordinária ou força energética eram consideradas os lares dos deuses poderosos. Logo depois, relicários/templos foram construídos nesses locais, e alguns deles viraram grandes centros de culto ou de oráculos. Apolo e Artêmis nasceram na ilha de Delos, segundo os gregos, o que fez que essa ilha minúscula se tornasse um centro de peregrinação e de comércio. A famosa escola dos mistérios de Elêusis - que atraiu os maiores homens da época clássica - era o centro de uma procissão anual que terminava em ritos de iniciação capazes de transformar as vidas dos participantes. A caverna em Elêusis era importante porque os gregos acreditavam que ela era o portão do Mundo subterrâneo onde a deusa Proserpina foi seqüestrada pelo deus Plutão. Esse lugar era intimamente ligado à idéia de renascimento.

Peregrinações cristãs começaram aproximadamente em 300 DC e eram conduzidos aos locais associados com a vida de Jesus. Não demorou muito tempo para os lugares ligados aos apóstolos e santos se tornarem centros de peregrinação; e os santuários católicos eram geralmente construídos nos lugares sagrados das religiões anteriores. Santiago de Compostela é um entre muitos exemplos: escavações abaixo da catedral revelaram um templo romano e abaixo desse um outro, céltico, ainda mais antigo.

Na alta Idade Média, relíquias eram um motivo importante para peregrinação; catedrais e igrejas importantes foram construídas para mostrá-las. O poder mágico das relíquias é considerado uma maneira de se unir com a energia ou consciência do santo. O tumulo de São Francisco de Assis, por exemplo, é uma das destinações mais populares para Cristãos, não só por que os vestígios dele estão lá, mas também por que ele participou direitamente na construção da igreja. O espaço físico é então imbuído com sua energia.

A geografia sagrada do caminho de Santiago

As rotas da fé cristã mais importantes na Europa medieval conduziam para Jerusalém, Roma e Santiago de Compostela. A última destinação era considerada a mais popular e a mais sagrada. Apesar de que Santiago era, e ainda é uma cidade pequena que fica na Galicia, no norte da Espanha, sua catedral é magnífica e abriga as relíquias do evangelista Santiago. Desde a Idade Média centenas de milhares de peregrinos caminharam os 700kms do percurso. Em 1985, a UNESCO declarou o Caminho de Santiago um Patrimônio Mundial.

O que não é bem conhecido é que quando as peregrinações cristãs a Santiago-de-Compostela começaram no século IX, a rota já existia aproximadamente há dois mil anos. O Caminho completo - que se inicia em St. Jean Pied-de-Port (na fronteira francesa) e acaba em Compostela - é como uma constelação de povoados e os lugares sagrados têm nomes de estrelas e animais totêmicos como o cão e o lobo; o último é uma referência clara à estrela Sirius (sobre qual falaremos mais adiante).

A palavra Compostela é uma indicação muito reveladora da intenção original da rota: para refletir a Via Láctea no plano terrestre. O nome pode ser interpretado de várias maneiras. A tradução mais óbvia é campus stellae (campo da estrela), uma referência à luz que supostamente indicou a tumba de Santiago quando ela foi descoberta no século IV. Mas esta palavra latina também evoca o Caminho como um reflexo terrestre da Via Láctea. Os povos pré-históricos reverenciavam a abóbada do céu noturno. Quase todas estas culturas erigiam estruturas megalíticas e círculos de pedra para indicar os pontos de energia ou de luz, e também para representar as constelações. A Via Láctea era o caminho seguido pelos heróis e imortais para alcançar os palácios celestiais dos deuses; os celtas o chamavam a arca do Lugh (deus da luz). Esta cultura demarcava vários outros caminhos sagrados na Inglaterra e na França indo na direção oeste - onde morre o sol diariamente. Mas isto não e tudo. Foi também observado que a Via Láctea termina na constelação de Sirius, que é a estrela mais brilhante do céu, conhecida como a Estrela do cão. A importância deste astro se evidencia nos nomes relacionados aos cães na região, e mais tarde, na simbologia da peregrinação, um cão precede o Santiago no seu caminho.

O Caminho pode então ser visto como uma rota que conduz peregrinos através de níveis de consciência representados por estrelas, e eles acabam a jornada na origem divina simbolizado por Sirius, que revela nossa luz interior na crença esotérica. Outra interpretação da palavra compostela se relaciona ao termo alquímico composto, uma referência à Opus, que é o trabalho alquímico no laboratório medieval. A aparência de uma estrela branca na superfície do composto era sinal de que a primeira parte do grande processo de transformação fora atingida (há uma imagem similar a essa luz em cima da tumba do evangelista Santiago). O alquimista Fulcanelli escreveu que para o peregrino, a espetacular visão da catedral ao chegar na cidade de Santiago é o sinal de que a primeira parte da viagem se realizou; depois, terá que voltar para casa, e então aprofundar e integrar a si mesmo os ensinamentos do caminho. No fim da peregrinação, o peregrino recebe a benção mística de Santiago, confirmado pela marca luminosa que brilha em cima da tumba.

Os templários sem duvida reconheciam as intenções dos povos anteriores ao cristianismo que percorreram o caminho, visto que eles construíram igrejas e capelas cristãs sobre lugares historicamente poderosos. Existem várias igrejas em que se aplicam os princípios da geometria sagrada.
 

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Jacques Theron

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Jacques percorreu pela primeira vez o caminho de Santiago-de-Compostela na Espanha em julho de 2001. A experiência foi tão profunda que ele organiza desde então uma viagem anual que inclui um processo espiritual no local, no ‘Caminho das Estrelas’ com outros peregrinos. Em 2008 ele começou a programar viagens espirituais para a América do Sul.