por Vander Rocha

Os nossos ontem

É comum vermos pessoas fazerem pregações usando de gestos teatrais, com voz 
ressonante ou de passividade melancólica exteriorizando contrição. Tendem com isso demostrar espiritualidade maior, mas é apenas ostentação.

O ser altamente espiritualizado é raro. Bandeirante do infinito larga o cotidiano para enveredar-se por “mares nunca d’antes navegados” do interior espiritual.

É o pioneiro que abandonou as velhas estradas em busca de outras que lhe tragam riqueza interior sem, contudo abandonar os cuidados materiais do viver diário e sem exteriorizar-se como exemplo.

 

Nessa fala busco mostrar que o vivente humano tem o exercício do aprendizado no caminhar terreno. Da infância à idade avançada, a cada instante, a cada experimentação, uma lição é ministrada, muitas vezes vindas de erros que cometem e que lhes trazem consequências não boas. Havemos de saber tirar lições desses momentos e não apenas sentir dores, sofrimentos, mágoas, rancores e ódios. Portanto, cada instante é oportunidade de exercício íntimo.

No poema 2 - Síntese das antíteses, o filósofo chinês Lao Tzé, em sua obra Tao te Ching - O Livro do Caminho e da Virtude – nos diz que:

Só temos consciência do belo
Quando conhecemos o feito.
Só temos consciência do bom
Quando conhecemos o mau.

Adaptando esse ensinamento para o nosso tema, só teremos consciência do acerto quando conhecermos o erro, por experiência própria ou alheia.

Assim aprendendo, não encontrando culpados ou desculpas pelos erros cometidos, mas tirando lições deles, o pequeno ser de ontem se tornará no grande ser de hoje, ou no de amanhã.

O Nazareno lançou ao esquecimento o passado da adúltera em atenção ao seu presente ao dizer-lhe: “Vá e não erres mais”. 

Ninguém nasceu bom ou mau, porém, potencialmente somos bons ou maus, e podemos nos fazer melhores ou piores conforme usarmos do nosso livre arbítrio. Há o livre arbítrio e não o determinismo compulsório do chamado destino, assim, ser bom ou ser mau é escolha e o erro é o caminho para o acerto.

A questão da influência do meio em que se vive pode induzir o indivíduo ao desacerto, mas será sempre escolha.

Se existe ou não o DNA do bem ou do mal, não é aqui cogitado e a ciência não é conclusiva a respeito. Cuidamos tão somente do viver no aprendizado.

Os ditos puros tentam converter aos outros não para o ajuste, mas, tão somente, para o próprio ego por se considerarem pregadores da verdade. Atribuem erros aos outros e deles exigem perfeições que não as têm pessoalmente.

O erro alheiro não é passível de crítica ou de julgamento de quem quer que seja. Entendamos que se trata de instante de experimentação e aprendizado de outrem e que tal é pertinente, tão somente, àquele indivíduo. Quem errou já sofre as consequências do próprio erro, não precisa ser açoitado.

É comum ouvirmos, aqui ou ali, alguém dizendo para que se tome cuidado com essa ou com aquela pessoa, pois que, no passado ela fez isso ou aquilo. O que nos interessa é o     que a pessoa é hoje, os seus ontem, assim como os nossos ontem, foram momentos de aprendizados.

Fiquemos atentos para com o nosso eu, de forma a não cometermos o equivoco de identificarmos no alheio o que já conhecemos em nós, sem que nos corrijamos, permanecendo-nos no acontecido sem olharmos para frente na busca de melhores caminhos. 

Vander Rocha

+ artigos

Administrador, professor e palestrante. Autor de diversas obras literárias de temáticas espirituais, entre outras. Além disso, é membro da Academia Popular de Letras do Grande ABC.