por Leandro José Severgnini

Pagar o mal com o bem

Esta é uma das tarefas mais complicadas para nós. Visto que ainda somos indivíduos de baixo grau evolutivo, encontramos muitas dificuldades no nosso meio. Talvez, uma das maiores dificuldades seja a de lidarmos com o ingratidão.

O nosso senso ético/moral constantemente nos impulsiona para a prática do bem, a fazer ao outro aquilo que gostaríamos para nós. Esta é a regra básica da caridade, mas como lidar com aqueles indivíduos que nos são ingratos?

Bem, primeiramente devemos ter em mente que dentro do caminho da evolução espiritual, temos muitos atributos que devemos desenvolver. Um deles certamente é o da prática do bem, fazermos o bem ao outro e a nós mesmos também. Mas só fazer o bem não basta; é realmente digno que façamos o bem, mas precisamos mais do que isso, precisamos fazer o bem de modo incondicional, fazer o bem desapegadamente, ou seja, sem esperar qualquer recompensa, nem mesmo o reconhecimento daquilo que foi feito. Este, certamente é um grande desafio, porque para isso precisamos ignorar o nosso ego. 

Pergunto: "Se Jesus esperasse o reconhecimento do povo judeu por todo o bem que ele fez, teria ele se submetido àquela dolorosa existência?". Penso que não. E da mesma forma seria com todos os outros grandes mestres que já pisaram por aqui. O número de indivíduos que os reverenciavam e os seguiam era muito menor do que o número daqueles que os zombavam, humilhavam e os tratavam mal. Mas existia algo de incondicional neles: O amor!

Em nossos momentos mais ásperos de orgulho, julgamos que devemos tratar bem somente aqueles que podem nos retribuir ou mesmo aqueles que um dia poderão quitar a suposta dívida conosco. E quando estes procedem de modo diferente, lançamos injúrias e nos magoamos porque "não esperávamos isso". Em contrapartida, esquecemos de nos questionar "quem foi que se magoou? Foi a minha essência divina ou foi o meu ego?".

Entendo que este é o nosso maior desafio: Compreender que nada é mais eficiente que o ego para interromper a nossa evolução. Todo e qualquer infortúnio de nossas vidas procedem dele. Sua ação é corrosiva e precisa ser freada. Mas para que isso aconteça precisamos compreender que o verdadeiro antídoto do ego é o esforço em desenvolver em nós o amor. Digo "esforço" porque não é da noite para o dia que alcançaremos tal proeza, mas precisa ser feito, precisamos começar de algum modo. E devotarmo-nos à prática amorosa do bem desapegadamente é a ferramenta mais eficaz.

A primeira resposta que o ego nos dará é: "Mas o que eu ganho com isso? Se ninguém faz o bem para mim, por que eu devo fazer ao outro?". Nada é mais resistente ao amor do que ego. Mas não podemos esquecer que o Universo é perfeito em sua constituição moral e que a humanidade tenderia à autodestruição se a lei moral fosse que devêssemos primeiro esperar alguém que nos faça o bem para que depois o fizéssemos. Mas não é assim, é exatamente o oposto e a lei de Ação e Reação nos impulsiona a primeiro sermos bons para que depois o bem se manifeste em nossas vidas. O que está dentro de nós, cedo ou tarde também estará fora. É uma consequência natural tão certa quanto a brevidade da vida na matéria.

Entenda que tudo o que existe é uma perfeita manifestação do amor cósmico, mesmo que muitas vezes não tenhamos a capacidade de entender certas coisas, mas a nossa incapacidade de compreensão não significa que algo esteja errado, apenas que ainda não desenvolvemos a compreensão da vida em si. A boa notícia é que este esforço não compete a mais ninguém, se não a nós mesmos!

Leandro José Severgnini

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Palestrante e escritor. Autor dos livros intitulados Dias de Luta, Dias de Glória e Liberdade - Nada Menos Que Tudo.