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por Mariana Montenegro Martins

Ser, Fazer e Ter

A cultura ocidental valoriza a criatividade, a funcionalidade, o acúmulo. O indivíduo desta sociedade é reconhecido pelo que faz e pelo que tem. Fazer e ter prevalecem ao ser, tendo este último, pouca ou irrelevante importância. Assim sendo, a sociedadese determina ao máximo esforço, ao excesso de atividades, e ao stress. Todos querem fazer para ter algo, seja capital ou prestígio. O trabalho não é a expressão dos dons que o mistério conferiu a cada um, mas a busca do sistema pela máxima funcionalidade produtiva. Daí advém a lógica da competição.

Já para os povos baseados na terra, como os povos indígenas, “muita funcionalidade ou criatividade a esmo levam ao caos”, como mostra Angeles Arrien, no seu livro “O Caminho Quádruplo”. Para fazer e ter, antes é preciso ser. Saber quem sou, o que vim fazer no mundo, e então o que preciso dispor para tal. É para isso que precisamos de recursos, para dar vida a nossa obra. Cada alma veio ao mundo para realizar uma obra-prima, para fazer algo único. Mas o ser humano tem a mania de tentar ser aquilo que ele não é, ao contrário de qualquer outro ser da criação.

A ordem acontece quando o fazer é para expressar o ser, e o ter, para poder dar do ser. Ter é para dar, não é para possuir ou acumular para si. É para compartilhar do tesouro que trazemos dentro de nós, para dar um presente ao outro, oferecer um remédio. Muitas sociedades indígenas acreditam que cada pessoa possui um “remédio original”, um poder pessoal único, e talentos que não se encontram combinados da mesma maneira em outra pessoa. Esse remédio é aquilo que trazemos para dar ao mundo, é a expressão do nosso potencial.
Ser funcional dentro de uma sociedade em crise como a nossa, pode ser sinal de normose, de patologia. Pois agir sem a consciência do ser apenas reforça o caos. O desafio é trazer “o grande remédio” ao mundo. Aquilo que pode contribuir para a transformação e a cura do sistema que está doente e corrompido. É importante nesse momento de crise social, repensar nossos valores e determinações. Repensar o que significa realmente prosperidade, para talvez aprendermos a valorizar mais a simplicidade e o essencial.

Viver com simplicidade possibilita viver sem grilhões. A simplicidade nos conecta a terra, é fluida como a água, que corre mesmo por onde há o menor espaço. Tem um caminho, e por isso não se detém nas pedras, as contorna. A simplicidade evoca a “palavra-chão”, está assentada no Hara, no centro vital abaixo do umbigo, nos faz ser verdadeiros e justos. A simplicidade é a maior das virtudes para um santo, tanto quanto saber orar e praticar austeridades. Já dizia Clarice Lispector: “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”. Mas como ser simples? Como se ater ao essencial, sem deter o coração nas riquezas?

Krishnamurti falava que devemos encontrar a cada dia uma maneira de morrer para tudo o que passou. Se esvaziar, tornar-se novamente, e a cada dia, um copo vazio, para ser novamente preenchido. No poema de Cecília Meireles diz-se: “renova-te, renasce em ti mesmo”. A tendência do ser humano é com o passar do tempo ir acumulando e se desgastando, ao invés de ir se esvaziando e de se renovar. Ele contribui com a entropia, ao invés de retardá-la. Esse é o caminho para o sofrimento e para as doenças. O ser humano, com sua taça cheia, se fanatiza por ideias, acumula problemas,enche-se de stress, chega ao pico da pressão, e convence-se de que não há outra maneira.

Podemos relativizar a cultura do “homem-engrenagem”, do “ser-para-o-consumo”. Sempre tem uma solução e sempre sabemos o melhor a fazer, se perguntamos dentro de nós. Quando silenciamos por um minuto, e morremos para tudo o que passou, sabemos nos esvaziar. Podemos desconstruir as diretrizes normóticas que nos convencem que devemos nos desgastar e acumular para sermos felizes. É o contrário, quanto mais leves e esvaziados estamos, melhor enfrentamos os problemas, com energia renovada, e mais podemos receber as dádivas que a vida tem a nos dar. Assim um novo dia pode ser celebrado; com novos olhos,o coração leve e mãos vazias para recomeçar.

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Mariana Montenegro Martins

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Escritora, terapeuta e educadora. Autora do livro Contos da Alma Peregrina.