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por Andrea Pavlovitsch

Sobre a minha avó

De repente olhei para ela. Deitada. Frágil. A pele manchada pelos 92 anos de história. Guerras internas e externas. Um casamento difícil. Cinco filhos, dois falecidos precocemente. Muitos netos, alguns bisnetos. 

Ela era o elo perdido. Via um pouco da minha sobrinha no seu jeito parrudo. A pele fina e os cabelos claros lembravam a minha irmã. Os dedos fortes lembravam os meus próprios dedos. Era ano novo. Uma vida nova. E estávamos num hospital perto da Avenida Paulista, às 11 da noite. 

Ela teve um derrame. Um derrame seguido de muitas convulsões. Eu ouvi tudo, porque fiquei cuidando para que a minha sobrinha, de 2 anos, não visse a bisa em sofrimento. Meu pai, minha mãe e minha irmã apinhavam-se no apertado banheiro do apartamento por mais de uma hora. Ela caiu, prendendo a porta e o nosso desespero. Conseguimos empurrá-la, sentá-la e ali sucederam uma sequência de desmaios e voltas. Em um deles, meus pais e irmã desesperados gritavam e choravam com a certeza de que fora o último suspiro. Não era. Suspiramos nós, aliviados. 

Gente que é o elo de uma sequência. Da história do mundo. Da Alemanha nazista. Das viagens de navio nos anos 40. De tentativas de assalto, de assassinato, de estupro. De perdas e mais perdas irreparáveis.

Gente que mantém a família junta. A matriarca. A preocupação e o alívio. Por quem cuidamos da nossa própria saúde. Por quem temos quem chamar de família. 

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Somos elos. Somos frágeis. Carregamos mais do que o DNA. Não, não foi só Jesus que viveu, sofreu e morreu por nós. Cada antepassado, cada avó, avô, bisos, pais, fez e faz seus sacrifícios. A gratidão é a nossa obrigação. Também nos sacrificaremos por nossos filhos, sobrinhos, netos. Um dia serei eu aqui, pele manchada pelo tempo. E algum dos meus sobrinhos me acompanhando às 11 da noite de um ano novo lá em 2060... se eu tiver a sorte e a garra de mulheres como a minha avó. E como todas que a antecederam. Estar aqui, no ano novo, é uma honra. Uma honra a cada um dos meus antepassados e um honra a força das mulheres da minha família. Uma vida nova com toda a certeza. 

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.