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por Elizabeth Nakata

Sobre Virgem

Num passeio de férias fui levada à casa de veraneio de um casal. Mal atravessei o portão de entrada e quase fui derrubada por duas cadelas, uma grande e desajeitada e outra pequena, ágil e brava.

Acomodamo-nos na sacada e, mesmo não sendo muito observadora, não pude deixar de notar o equilíbrio presente em todas as peças de decoração. Muitos quadrinhos, pequenos enfeites, lembranças adquiridas em muitas viagens pelo mundo afora. As cadelas pareciam obedecer apenas ao dono da casa, um senhor de mais de 70 anos, de olhos muito vivos e com um quê de malícia.

A conversa fluiu fácil, em torno do cotidiano, do arranjo do tempo naquela cidade turística pequena, litorânea e as complicações do dia-a-dia na cidade grande, também litorânea, mas de turismo intenso durante todo o ano, onde tinham residência fixa.

A dona da casa serviu um lanche delicioso, com um quindim de deixar as deusas preocupadas com a balança. Também pudera, taurina, havia comandado uma casa de doces de sucesso, há tempos. Mas Touro e Câncer não entram nessa conversa. Mandei as deusas passearem, chutei a balança digital imaginária e cai de boca no doce, repetindo a porção.

Depois, bem provincianamente, fui levada a conhecer a casa. A harmonia continuava nos detalhes. Quartos dos rapazes em estilo naval austero, quarto de hóspedes neutro, clean, o do casal em rococó rebuscado. Nos fundos um anexo, domínios do senhor de olhar maroto, com um belo escritório, sala de música com aparelhos não tão modernos, mas extremamente funcionais e a antiga garagem com porta fechada.

- Cadê a chave da oficina? - pergunta a senhora à nossa frente, em voz alta, para o marido. - Já estou levando - responde ele já se pondo a caminho.

Quando ele chega abre a porta, se posta ao lado e observa minha expressão. Entro, meus olhos se arregalam e paro, surpresa. Sabe aquelas oficinas que aparecem nos filmes e seriados da tevê? Não poderiam ser mais cenográficas que essa. Não havia nenhum cantinho de armário, nenhum pedacinho de parede que não estivesse ocupado por alguma ferramenta ou utensílio. Claro que todas ordenadas por cores, tamanhos e especificidades. Pregos e parafusos separados em caixinhas por tamanhos. Turquesas aqui, chaves de fenda ali, uma orgia de serrotes, martelos, porcas, parafusos, arruelas, prancha de surfe acomodada em suporte no teto, enfim algo inimaginável para uma pisciana desorganizada nos papéis do escritório. A limpeza e a ordem eram rainhas naquele ambiente. Não pude conter o comentário: - Isso parece coisa de virginiano psicótico -. O sorriso satisfeito do senhor e um aceno de cabeça confirmaram minhas suspeitas. Ainda volto lá e fotografo aquela oficina, para que nem eu mesma duvide do que vi.

Quando me preparo para sair, ele diz:

- Como toda oficina que se preze, aqui também tem as garotas do calendário. E puxou a porta, deixando à mostra os pôsteres centrais de várias coelhinhas da Playboy.

Mudança de cena para férias recentes, quando hospedei por alguns dias uma garota de 11 anos. Corre-corre preparando programação, expectativas, enfim ela chega. Bonita, pequena, séria, quieta. Derretendo-se toda quando conhece a cadelinha que tenho em casa. Com ela no colo senta-se no chão, conversa, faz carinhos, mostra um lado bem diferente do que exibe nos contatos sociais. É o ascendente em Escorpião, que também não entrará nessa conversa.

A garota vem do Nordeste, primeira visita a São Paulo. Nada mais natural que levá-la ao bairro oriental. Lá vamos nós, percorrer as lojinhas da Liberdade. Na primeira parada comecei a me inquietar. A menina olhava todas as quinquilharias, pegava, examinava, perguntava preço, queria saber a utilidade. Cinco lojas depois comecei a me exasperar pois não teríamos tempo suficiente para percorrer metade da rua, com tanto tempo gasto em cada loja para ver absolutamente tudo, nas suas minúcias. A ideia de levá-la a 25 de Março foi agonizando, à medida que levávamos um tempo enorme para percorrer poucas lojas. Imagine uma rua com muitas lojas e, ainda por cima, camelôs ocupando toda a extensão das calçadas! Nem pensar!

Astróloga de carteirinha, lá vou eu perguntar a data de nascimento da guria. Certamente você já sabe em qual signo o solzinho dela foi pousar: Virgem.

No dia seguinte, passeando pelo shopping, adivinhe qual foi a loja que chamou a atenção da mocinha: uma de utensílios domésticos, com muitos utensílios domésticos, daquelas que fazem propaganda durante dez minutos na tevê. Juro que euzinha nunca havia notado, mesmo frequentando o tal shopping há muitos anos, que havia aquela loja. Depois de quase arrancá-la de dentro do recinto, fomos para outro piso. Quase tive um chilique quando ouvi: - Olha outra loja igual àquela! Podemos entrar?

Virginianos são assim, limpos, organizados, obcecados por perfeição e detalhes. Prestativos, solícitos, atentos a todas as minúcias. A funcionalidade, para eles, vem sempre antes do design. Adoram ser úteis e não têm medo de trabalho. Essas qualidades parecem nos remeter a um universo de pessoas amadurecidas, até caquéticas vá lá. Vê-las assim, ressaltadas em duas pessoas com tanta diferença etária, mas tão iguais no modo de ser, me fez pensar que o pôster pode mudar da Hello Kitty para o da Playboy, mas ele estará milimetricamente colado. Duvida? Pegue a fita e meça!

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Elizabeth Nakata

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Astróloga, Jornalista e Radiestesista.