por Paulo Bregantin

Suicídio: um caminho sem volta

O suicídio é um ato das pessoas que estão muito doentes mentalmente? Ou de uma fuga da vida?

Nem todas as pessoas que se matam têm problemas de saúde mental. Se observarmos na história podemos verificar que na Segunda Guerra Mundial, os suicidas japoneses que iam de fronte para seus alvos com seus aviões, em sua maioria, eram pessoas normais e, por acreditarem em sua pátria e nação, se suicidavam como ato de bravura. Atualmente, observamos muitos “homens bombas” ou suicidas que atuam em nome de muitas situações ou algo e também, em sua maioria, são pessoas normais, porém, com propósitos suicidas.

Também temos pessoas com doenças terminais que solicitam a morte por não mais aguentarem as dores da doença física.

Uma pessoa pode cometer suicídio por motivos psicossomáticos?

Há uma constatação de que a depressão atinge mais de 5 a 10% da população mundial e 15% das pessoas desenvolverão a depressão ao longo da vida. Hoje, não temos como fugir, pois a maioria dos suicídios têm relação direta com a depressão e, o mais assustador, a maioria das pessoas depressivas que cometem o suicídio não foram tratadas por profissionais e muitos não aceitaram ou não seguiram as informações e recomendações dos profissionais de saúde que tratam a depressão.

Os ataques de pânico (medo exagerado de tudo e de todos) e a psicose (viver fora da realidade) aumentam e muito o risco do suicídio.

Ninguém na verdade saberá porque uma pessoa cometeu o suicídio, o que temos são avaliações, percepções e dados passados que podemos levar em conta. As informações que temos disponíveis nos levam a algumas possibilidades, são elas:

  • Fuga do sofrimento psicológico intolerável (término de relacionamentos, desemprego, sentimentos depressivos crônicos, morte, doenças “terminais” e dores no profundo da alma).

  • Tentativa de “machucar” o outro, ou seja, morrer para deixar o outro sofrendo.

  • Sentimento de inutilidade (perceber que já não serve para mais nada na vida e nem para as pessoas a volta).

  • Desesperança (falta de motivação e determinação para fazer e executar tarefas que façam a diferença para si mesmo e para o outro).

  • Morte de alguém muito importante na vida.

  • Uso exagerado de drogas como: remédios controlados, álcool, cocaína, entre outras drogas depressivas.

Existem pessoas que tentam o suicídio somente para chamar a atenção?

Sim, muitas pessoas para chamar a atenção para si podem fazer tentativas falsas de suicídio. É uma forma de manipular os indivíduos que estão a volta. Por exemplo, tomar vários comprimidos que no fundo não levarão à morte, fazer cortes em partes que não possuem risco, etc. A ideia dessas pessoas é que quando elas forem encontradas semimortas, recebam o amor e carinho que buscam dos outros que a rodeiam. Porém, muitas vezes, o plano de chamar a atenção pode sair errado e o suicídio ser efetivado. Por isso, quando a pessoa começa a falar em suicídio devemos sempre questionar e saber os motivos, e o mais rápido possível saber o que realmente está acontecendo.

O suicídio pode ter uma fonte hereditária? É uma maldição?

O suicídio pode sim ter uma causa hereditária, pois se na família teve alguns casos é sempre bom saber o porquê aconteceu e se precaver com aqueles(as) mais suscetíveis a esse desejo suicida. Porém, as causas de suicídio são baixas quando avaliadas em todo o mundo, então, deve-se avaliar caso a caso. Sobre a segunda pergunta, somente os “neuróticos religiosos” podem pensar em algo assim, então cabe ficar atento a esses fanáticos, para não exercerem uma certa pressão para seguir esse pensamento sobre “maldição”. O suicídio é algo muito grave para ficar somente no campo da espiritualidade, é necessário um estudo sério e avaliações profundas para chegar à sabedoria sobre o tema.

As drogas são fatores de risco para o suicídio?

Sim, são fatores de altíssimo risco para o suicídio, pois as drogas diminuem as ações mentais, tendo em muitos casos a mesma ação da psicose (sair da realidade) e, dessa forma, as pessoas podem fazer coisas que não fariam se estivessem normais, por exemplo, suicidar-se. As drogas retiram da pessoa o medo e até a ansiedade, que até certo ponto são muito importantes para não atuarmos de forma irresponsável, ou seja, o medo e a ansiedade em graus normais são muito eficazes na manutenção da vida. Quando utilizamos drogas perdemos esses dois e, com isso, podemos cometer o suicídio sem sequer ter o desejo dele. Por isso, quando as pessoas começam a usar drogas para fugir de alguma situação, elas podem de forma inconsciente já estar pensando em cometer o suicídio. Cabe a nós ficarmos atentos em nós mesmos e aos que nos rodeiam e amamos.

Qual é a frequência do suicídio na espécie humana?

Os estudos mostram que cerca de 0,01% ou 10 por cada 100.000 pessoas por ano cometem o suicídio, porém, em certos grupos esse percentual aumenta muito, principalmente nesses citados acima, ou seja, os drogados, depressivos crônicos, desesperados com tudo e com todos, psicóticos, etc - o número pode chegar a 10 ou 30 vezes o percentual.  Em idosos, aumenta mais ainda (cerca de 5 vezes mais que os jovens). As taxas parecem altas, porém, em 99% das pessoas deprimidas o suicídio não é a saída mais utilizada, mesmo assim, devemos ficar atentos, pois, como falei, cada caso é um caso. Quando falamos sobre suicídio não devemos nos atentar somente a estatísticas, e sim a avaliação “clínica” de cada pessoa em potencial, ou seja, aqueles nossos entes queridos que têm uma tendência maior ao suicídio.

Para pensar em suicídio tem que estar louco?

Sim, pois quando pensamos em tirar a própria vida, estamos passando por um período de loucura, não necessariamente doença mental, mas algum tipo de alteração. Existem pessoas que dizem: “Hoje, Deus poderia me levar”. Bem, é um tipo de ideia de suicídio, porém você está colocando nas mãos de outro tirar sua vida, penso que isso é algo leve e não nos levará a cabo o desejo de suicidar-se. Mas, quando falamos: “Eu quero tirar a minha vida ”, aí muda de posição, pois a vida passa a ficar nas suas mãos e você fica dono dela para retirar quando quiser, então, devemos pensar em como estamos falando sobre isso para nós mesmos. Estamos colocando nas mãos de “deus” ou em nossas próprias mãos a nossa vida?

É comum as pessoas tentarem mais de uma vez o suicídio?

Sim, é muito comum a tentativa de suicídio, pois em cada pessoa existe uma ambivalência ou um desejo de viver e um de morrer, por isso, as tentativas tornam-se tão altas, pois muitas na hora de suicidar-se voltam atrás e não concluem o ato do suicídio. Porém, isso não tira da pessoa o desejo, pelo contrário, as tentativas podem aumentar, até chegarem ao seu objetivo. Por isso, devemos ficar atentos, pois as drogas e os medicamentos podem ser uma forma de dar “coragem” para cometer o suicídio. Quando percebermos algo diferente e/ou estranho com a pessoa é fundamental perguntar, checar, observar...

Quem comete mais suicídio, o homem ou a mulher?

Quando falamos em tentativas, as mulheres são as que mais aparecem. Os homens tentam menos, porém, são os que mais executam, devido a sua força física. Mas, não existe um estudo específico sobre isso, somente uma constatação de estudos de fatos acontecidos, não tem como fazer uma projeção sobre essa informação. Logo, é fundamental ficar atento para homens e mulheres com a mesma intensidade.

Fatores que devemos levar em conta de possíveis riscos de suicídio:

É fundamental levar em conta os fatores mais óbvios, ou seja, a pessoa falar muito em suicídio, histórico de autoflagelamento, tentativas de suicídio, desrespeito com a própria vida (forma exacerbada de exposição ao perigo).

Fatores biológicos:

  • Idade (adolescente e idoso)

  • Sexo (mulheres tentam mais; homens conseguem mais)

Fatores de personalidade:

  • Agressividade exagerada consigo mesmo e com o outro

  • Impulsividade exagerada para ações onde a vida fica em risco

  • Violência exagerada consigo mesmo e com outras pessoas

Verbalizações:

  • Falar de suicídio em geral

  • Idealização suicida passiva

  • Idealização suicida ativa

  • Intenção suicida

  • Plano ou carta suicida

  • Implica em executar o plano

Comportamento crescente:

  • Reordenar os assuntos pessoais, como testamento ou seguro

  • Aproximar-se dos meios de suicídio

  • Comportamento suicida/tentativa anterior

Comportamento suicida:

  • Desatenção

  • Comportamento perigoso/arriscado

  • Manipulação/gestos suicidas

  • Tentativas ambivalentes

  • Cortes superficiais

  • Pequena “overdose”

Precipitantes psicossociais:

  • Isolamento crônico/agudo

  • Final de uma relação

  • Acontecimentos da vida

  • Perda de relação/progenitor/filho

  • História familiar de suicídio

  • Suicídio de pares (imitar, na adolescência)

Barreira baixa para ato de suicídio:

  • Uso de álcool

  • Uso de drogas

  • Psicose

Questões legais:

  • Falência

  • Prisão

  • Detenção

  • Divórcio

  • Demissões

Diagnóstico:

  • Doença mental

  • Depressão

  • Inutilidade/desesperança

  • Recuo após melhora inicial

  • Ataques de pânico

  • Psicose

  • Alucinações auditivas que ordenem o suicídio

  • Doença física

  • Crônica

  • Novo diagnóstico de uma doença grave

Existem muitas outras possibilidades que não descrevi aqui, muito por falta de minha capacidade em entender a fundo sobre o suicídio, porém, não posso ficar calado e não publicar essas informações, mesmo que não abrangendo tudo o que deveria ser abrangido.

Minha expectativa é que você, ao ler, tenha em mente que o suicídio é um mal que vem se alastrando no meio de nossas vidas cotidianas e que ele (o suicídio) é uma forma de tirar de nós a felicidade de viver.

Então, não se cale, multiplique essas informações, mesmo que você não concorde (me rebata), mas não deixe de avisar as pessoas sobre esse mal, pois todo “desejo” vem sorrateiro, de forma silenciosa e sem alarde, mas quando se apresenta, muitas vezes, não se tem mais nada a fazer.

Paulo Bregantin

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Mais de 25 anos dedicado ao cuidado de pessoas, sendo Psicanalista Clínico e escritor com várias obras publicadas. Atua nas redes sociais como dono, gerenciando a página Paulo Bregantin e o Grupo Psicanálise Integrativa.

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