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por Andrea Pavlovitsch

Viver de curtidas

Entrei no perfil de um rapaz outro dia, depois de muita insistência de uma amiga. "Entra e veja que coisa mais estranha". Entrei e vi, já de cara, uma profusão de selfies (aquelas fotos que a pessoa tira de si mesmo). O moço não é feio (tampouco é meu tipo), mas tinha pelo menos uma selfie por semana. Nos intermédios das selfies, frases prontas do tipo "sou intelectual“, mas sem muita profundidade. Algumas frases eram o típico "pega mulher", falando o quanto ele está sozinho e carente e o quanto é difícil para ele conseguir alguém para amar. Aí que começa a parte mais engraçada.

A quantidade de curtidas de mulheres era incrível. Mulheres lindas, médias e até feinhas. Curtidas, comentários, réplicas e tréplicas. Convites para jantar e algumas até mais ousadas que isso. O moço era quase uma subcelebridade local.

O mais interessante é que ele é "ninguém ". Não trabalha na mídia, não é ator e nem cantor. Não é lindo, nem rico. Não tem fotos em viagens incríveis, talvez uma coisa ou outra, e pelo que pude perceber, nem trabalhando está.

Qual é essa necessidade incrível de ser "curtido"? Sim, porque não é ser amado, nem ser querido de fato. Sabemos que, pelo tempo que ele reclama da sua solidão, não estava querendo, de fato, arrumar alguém. Quer é a certeza das curtidas e de que alguém ou algo está olhando para ele.

Por sexo? Pode ser! Mas então porque tanta reclamação das mulheres nos posts? Coisas como "nós somos trouxas de acreditar em você " ou convites insistentes e repetidos para sair. Dá a impressão de que ele nem mesmo costuma ir até o fim. Talvez com algumas poucas, mas sair com todas seria complicado até para o maior garanhão da cidade.

Na verdade, isso é sintoma. Sintoma da nossa tão falada sociedade narcisista, em que precisamos parecer mais do que somos ou temos de fato. Vemos um homem sem amor (nem mesmo o próprio) que se “garante” pela quantidade de mulheres que poderiam se interessar por ele, se ele ao menos fosse real. Uma imagem que é vendida como certa, mas que, com certeza, não tem nada a ver com ele.

A crise do masculino também é algo presente. Já vejo algumas vertentes falando sobre como o homem deve se posicionar num mundo onde as mulheres estão parando, ainda que insipidamente, de acreditar nas velhas maneiras do mundo ser. Um homem que precisa reencontrar seu espaço, que precisa se reconectar com a sua essência e saber o que realmente é importante para ele agora.

Na verdade, isso é geral, de todos os seres humanos. Sim, precisamos ser amados. E muitas vezes confundimos ser amado com receber curtidas nas fotos ou comentários obscenos. Confundimos as imagens nas nossas selfies com o espelho, com o que somos na realidade. O que somos está lá dentro, bem enterrado dentro de nós mesmos, e é necessário que seja escarafunchado, mexido, dolorido para ser real. O mundo é isso. Não é e nem nunca foi diferente. Não estamos vivendo “mais violência”, ela sempre existiu. Não existem mais crianças doentes, ou assaltos, ou assassinatos, eles só mudaram de posição, de cara, de efeito. Sofrimento tem sim a ver com viver a vida de verdade e parece que as mídias sociais, em geral, estão usando isso contra a gente mesmo. Sim, temos dias ótimos, que queremos mesmo comunicar ao mundo o quanto estamos bem e felizes. E temos dias péssimos, dias sem dinheiro, dias sem amor, dias em que o cabelo não está ajudando. Vamos aceitar quem nós somos de verdade, abraçar as nossas sombras e ajudar o mundo a ser um lugar, pelo menos, mais verdadeiro. Se cada um fizer a sua parte, coisas como essa não terão mais espaço.

Ah, e mulheres que curtem isso, saibam que é tudo mentira. Esse cara nem ao menos existe, tudo bem? Vivam as suas vidas com as pessoas de verdade, acreditem, é bem mais negócio.

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.