por Andrea Pavlovitsch

Cuidado com a “filosofia” de Facebook

Se eu pudesse banir uma coisa da vida das pessoas, assim, para sempre, seriam aquelas frases com fotos de paisagens que, vira e mexe, aparecem na nossa timeline. Não me leve a mal, eu gosto de frases. Adoro ler, apesar de andar um pouco relapsa com isso ultimamente, mas o que acontece por lá é outra coisa muito diferente.

A ideologia vigente precisa ser difundida. Precisamos continuar achando cachorrinhos fofos e dizer que só os “humildes” vão para o céu. Isso, para os “poderosos”, é um prato cheio e mantém a todos nós aprisionados em uma cultura que não nos leva a nada, só nos destrói e coloca para baixo.

Mas aí você me fala “que exagero, é só uma frase”. Então, vamos lá! Quantas vezes já aconteceu de você não saber o que fazer e, de repente, você escuta uma música ou lê uma dessas frases e pensa “é isso”? Se isso nunca aconteceu com você, na realidade, você nunca percebeu, mas já aconteceu. O que lemos, o que vemos, o que ouvimos faz a nossa mente, molda os nossos pensamentos. Se cultivamos pensamentos bons, teremos uma vida boa. Se cultivarmos pensamentos ruins, teremos pensamentos ruins. 

Então você está lá, entediada no seu trabalho e lê uma coisa do tipo “aturai o tédio, ele te fará mais forte”. Por mais que você ache uma bobagem, isso poderá fazer você ficar lá, aguentando um trabalho ruim porque “isso te fará mais forte”.

Ou então você está num relacionamento péssimo. A outra pessoa não te dá a menor atenção, vocês só brigam. Mas aí você escuta no rádio “entre tapas e beijos, é ódio, é desejo, é sonho, é ternura” e, sim, começa a achar que o seu péssimo relacionamento é normal. 

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Seres humanos procuram normas de conduta. Nós não gostamos de ficar à deriva, de sermos malvistos ou de estarmos errando em algum ponto. Claro, procuramos acertar, mas muitas vezes estamos mais preocupados em acertar para o mundo do que para nós mesmos. E quando passamos uma tarde inteira lendo frases atribuídas a Clarice Lispector – que Deus a tenha em bom lugar – geramos um senso comum e vamos sim querer seguir aquilo.

Depois vem os arrependimentos. Os “meu Deus, porque eu fiz aquilo e não aquele outro?”. Aí você já fez mudanças ou não fez mudanças importantes que podem ferrar com tudo.

O mesmo vale para os “conselhos” dos amigos. As pessoas te amam sim, não tenha dúvida disso, mas possivelmente elas aconselham de acordo com as próprias experiências e não de acordo com a sua verdade. Então, escute, mas filtre. Não escute conselhos amorosos de quem tem uma péssima vida amorosa – a pessoa já está te dando a dica de que não entende nada daquilo. 

Na realidade, procuramos conselhos fora – no Facebook, em músicas ou com os amigos – mas precisamos mesmo é aprender a nos escutar. Aquela sensação que o seu peito dá quando algo está errado – aquele aperto, aquela dorzinha esquisita – e quando está certa – a sensação de plenitude, de peito aberto e de alegria. Esse é o único conselho que vale a pena. Se não consegue fazer isso sozinho, procure um bom terapeuta. Somos treinados não para dar conselhos, mas para fazer você ouvir o seu próprio mestre interior.

Bem mais legal, né?

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.