por Hellen Reis Mourao

O Hobbit – Uma jornada inesperada

O filme O Hobbit relata eventos que antecederam a Trilogia O Senhor dos Anéis. E nele são relatadas as façanhas de Bilbo Bolseiro, tio de Frodo, da trilogia citada, quando jovem.

O filme começa narrando que o Reino dos anões, cujo rei era Erebor, anteriormente poderoso e próspero, sucumbiu devido a ganância dos anões por ouro e riquezas, sendo tomado pelo dragão Smaug, que o guardou durante 60 anos.

Isso é bastante curioso, uma vez que os anões costumam ser retratados como seres muito prestativos e dóceis. Ótimos mineradores e metalúrgicos, ele trabalham nas cavernas onde extraem pedras e metais preciosos e também são hábeis artesãos confeccionando objetos mágicos com as pedras e ouro encontrados.

 

Em termos psicológicos eles podem ser considerados como uma instância psíquica que retira o que há de precioso no inconsciente (caverna) e traz a superfície dando forma e uso a esses tesouros. Mas como são pequenos podem ser facilmente esquecidos e ignorados

Eles foram corrompidos pela ganância e pela exploração indevida da natureza. Isso significa que um complexo não está funcionando de forma harmoniosa com a totalidade da psique. 

Em termos coletivos, a corrupção e ganância dos anões é uma característica sóbria de nossa sociedade. Com o avanço tecnológico e intelectual do homem deixamos de lado e passamos a desprezar a natureza, com a exploração massacrante e indevida dos recursos naturais. Os anões, seres tão próximos da natureza, mostram os complexos afetados por uma atitude unilateral. Eles são símbolos da forma correta de retirar os tesouros da terra sem que ela seja destruída e explorada.

A exploração da Mãe natureza mostra outro sintoma da consciência coletiva: a falta do elemento feminino e de Eros. E quando Eros falta, logo se instala o poder juntamente com a ganância. Mas como mencionado em outro texto, a Rainha virá do mundo dos Elfos, seres muito próximos da função sentimento.

Bilbo então é recrutado por Gandalf para fazer parte e agir como ladrão na caravana liderada pelo anão Thorin, herdeiro do trono de Erebor.

No texto sobre O Hobbit 3 vimos que Bilbo possui características do deus Hermes.é rápido, leve, eloquente e inteligente.

 

Mas outra característica importante de Bilbo é o fato de ele ser pequeno. Nos contos de fadas temos por vezes herois muito pequenos, como nos contos O Pequeno Polegar e A Polegarzinha. O fato de ser pequeno, ínfimo e quase imperceptível significa que esse ser simboliza um aspecto esquecido e desprezado, por isso aparece de forma muito pequena. 

E a caravana parte para Erebor enfrentando Orcs e Trolls pelo caminho.

Mas o mais importante nesse primeiro filme é o encontro de Bilbo e Gollum. Encontro esse que irá desencadear toda a narrativa de O Senhor dos Anéis. 

Bilbo consegue roubar o anel de Gollum e com ele estabelece um jogo de adivinhações para poder fugir, mostrando toda a sua astúcia e inteligência.

O hobbit, como analisado anteriormente, não é o herói da história, mas possui um papel importante como ladrão, ou seja, como aquele que vai trazer o segredo oculto à tona.

Gollum vive no subterrâneo com o Anel e com o roubo, os poderes das trevas adormecidos agora voltam à tona, mostrando que às vezes é necessário um ato de transgressão (roubo) para que conteúdos reprimidos pela consciência possam ser enfrentados e assimilados. 

Mas o interessante é que Bilbo, mesmo usando o Anel não se contamina por ele e não se transforma em um “monstro” como Gollum (que também era um hobbit). Isso significa que Bilbo possui uma natureza mais próxima do mal, uma vez que ele conhece a arte de enganar com as palavras e que não hesita em roubar o Anel.

O fato de estar mais próximo desses aspectos sombrios mantém a sua personalidade intacta por muitos anos.

Como é sabido em Psicologia Analítica, quando a pessoa é muito ingênua e se encontra muito afastada de sua sombra ela se torna presa fácil de pessoas malintencionadas bem como de uma possessão pela sombra, vindo a se tornar aquilo que ela mais odeia e teme. 

Além disso, os hobbits são seres muito próximos da natureza e dos aspectos femininos, o que demonstra que o feminino em nossa sociedade sempre esteve mais próximo aos aspectos sombrios. Temos como exemplo Eva, figura feminina pela qual o mau entrou na vida humana. Entretanto, na mitologia cristã também é pelo feminino que a humanidade é salva. Maria é aquela que dá à luz ao Salvador, tendo um status de grande auxiliadora da humanidade.

E é justamente isso que torna Bilbo apto a posteriormente enfrentar Smaug e não ser contaminado pela ganância dos anões.

Portanto, conhecer a própria sombra nos auxilia a identificar a sombra no outro e assim nos tornamos mais sábios e menos ingênuos. 

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Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.