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por Hellen Reis Mourao

O Senhor dos Anéis e a Sociedade do anel

O filme A Sociedade do Anel começa nos apresentando três reinos da Terra Média, os quais estabelecem uma aliança por meio da confecção de anéis de poder. Esses reinos são os dos Elfos, dos Anões e dos Humanos.

No entanto o mago Sauron, forja um anel que tem o poder de dominar todos os outros lhe dando o domínio de toda Terra Média.

No início então a consciência coletiva simbolizada pelo reino dos humanos se encontrava em equilíbrio com os outros reinos. O primeiro representado pelos Anões, que apesar de serem primitivos, são prestativos e se encarregam da mineração, sendo responsáveis por cavar e retirar tesouros do inconsciente. E o segundo o dos Elfos seres mais refinados e sábios.

Os Elfos são criaturas de grande beleza que vivem nas florestas, sob a terra, em fontes ou outros lugares naturais. São seres sensíveis, imortais, que possuem poderes mágicos, grande ligação com a natureza e ótimos arqueiros. Eles simbolizam aspectos diferenciados da personalidade e a sabedoria.

Mas um reino foi deixado de lado. O reino de Mordor, cujo rei é Sauron, o Senhor do escuro. Sauron, então representa o aspecto sombrio rejeitado da consciência coletiva. Ele é o aspecto sombrio do Self. Um Mago Negro, que assim como Malévola em A Bela Adormecida, foi esquecido e renegado. E os aspectos sombrios quando reprimidos se voltam com uma força avassaladora contra a consciência, como um vulcão em erupção.

Para Jung, os números são manifestações simbólicas. Principalmente o três e o quatro. O número três simboliza a ação criativa, mas é um número incompleto, a completude se alcança no número quatro, que para ele simboliza a totalidade (exemplo: as quatro estações do ano, os quatro evangelistas, etc.).

O quatro também representa o elemento transgressor, o adversário. Para Jung (1979) a tríade é um esquema ordenador artificial, e não natural. O quatro vem estabelecer uma ordem, fazendo com que o fluxo dinâmico criativo se torne ordenado e estável.

E é sobre a questão da busca da totalidade que trata O Senhor dos Anéis. Na obra inicialmente três reinos em equilíbrio e um desprezado, que deve ser assimilado e compreendido. E essa redenção virá por meio de outro reino esquecido pela consciência, o qual será abordado logo a seguir.

Após a guerra o anel de Sauron vai parar com a criatura Gollum, e com ele fica até ser roubado pelo Hobbit Bilbo Bolseiro. 


 

O anel tem o poder de fazer com quem o possua não morra e não envelheça. Isso significa que a psique não segue seu fluxo, fica estagnada, e assim não cresce nem amadurece. Ou seja, a atitude consciente está paralisada e infantilizada, vemos essa atitude infantil na forma como Gollum se refere ao anel, como “meu precioso”. Ele parece uma criança com um novo brinquedo que não dividirá com mais ninguém.

Ele também tem o poder quase absoluto corromper o caráter e deformar a personalidade daquele que o detém, ainda que movido por boas intenções. Quem quer que tente derrotar Sauron utilizando o anel, acabará tornando-se o próximo Senhor do Escuro. Ou seja, corre-se o risco da identificação com os aspectos sombrios do Self, incorrendo em uma inflação do ego.

O ego arrogante passou a se identificar com a imagem da divindade interior. Na mitologia essa atitude inflada é sempre cobrada pelos “deuses”. É como diz Eurípides: “Aquele a quem os deuses querem destruir, primeiro deixam-no louco”.

Quando a atitude da consciência se encontra unilateral surge um centro ordenador para uma reorientação psíquica, mesmo que aparentemente pareça nocivo. Portanto o filme mostra uma jornada para o restabelecimento do equilíbrio psíquico e para que a consciência reconheça uma força superior e passe a aprender com ela.

Bilbo Bolseiro cansado e compreendendo que deve deixar a vida seguir seu fluxo que o levará a morte, resolve entregar o anel a seu sobrinho Frodo. O Mago Galdalf, então o convence a partir para destruir o anel. Frodo parte e leva consigo seus amigos Sam, Merry e Pippin para sua aventura.

Os Hobbits são criaturas ingênuas, simplórias e até primitivas. São ligados à natureza, e bastante desastrados. Esquecidos pelos demais reinos, lembram a figura do Bobo dos contos de fadas. Eles foram os únicos que não receberam anéis, ou seja, os Hobbits também representam uma parte desvalorizada e esquecida da psique. Mas diferentemente de Sauron não são vingativos.

Eles se assemelham ao Tolo do trunfo do Taro, mas também ao herói, pois toda a história está centrada neles.

Frodo é o escolhido. Ele será o responsável por salvar a Terra Média do mal e integrar esse aspecto sombrio à consciência. Isso demonstra que somente nosso lado rejeitado e desvalorizado pode nos trazer a ampliação da consciência. Não é o ego e sua prepotência que faz isso.

Curiosamente Frodo é o único o qual o poder do anel parece não corromper. Isso porque ele possui um diferencial. A figura do Mago Gandalf.

De acordo com Jung (2008) o Mago representa o aspecto do velho sábio, o mestre superior e protetor, arquétipo do espírito, representando o significado preexistente, oculto na vida caótica. Ele é o professor, o mestre, o psicopompo (guia das almas) na jornada do herói.

Ele sempre aparece quando o herói se encontra em uma situação desesperadora e sem saída, da qual só pode salvá-lo uma reflexão profunda ou uma ideia feliz, isto é, uma função espiritual ou um automatismo endopsiquíco.

Frodo e os amigos partem então, pela Floresta Velha, conhecendo um guardião Passolargo, ou Aragorn, que é descendente de Isildur e herdeiro do Trono de Gondor. Ele é o jovem rei, que deve assumir o trono que lhe é direito.

 

O rei é considerado um símbolo do Self manifesto na consciência coletiva. E esse símbolo, conforme tem necessidade de renovação constante, de compreensão e contato, pois, de outro modo, corre o perigo de se tornar uma fórmula morta — um sistema e uma doutrina esvaziados de seu significado e tornar-se uma fórmula puramente exterior.

Aragorn como herdeiro, representa essa renovação. Uma consciência ampliada que sabe que deve deixar seu lado mais fraco e desvalorizado agir.

Para essa missão de destruir o anel, de sucesso improvável, é formada uma Sociedade do Anel, composta por nove companheiros: quatro hobbits (Frodo, Sam, Merry e Pippin), dois humanos (Aragorn e Boromir), um elfo (Legolas), um anão (Gimli) e um mago (Gandalf).

Mas, ainda falta outro elemento importantíssimo. A Sociedade é composta apenas por figuras masculinas. Não temos um elemento feminino, que apareceu apenas uma vez, representado pela Elfa Arwen. Sem o feminino não há o equilíbrio e ele também deve ser integrado à consciência. Mas esse é um assunto para o próximo texto.
  
Bibliografia
JUNG, C. G. A Interpretação Psicológica do dogma da Trindade. Vozes. Petrópolis: 1979.
__________ Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2008a.
VON FRANZ, M. L. Mitos de Criação. 2 ed. Paulus. São Paulo:2011.
_________ A interpretação dos contos de fada. 5 ed. Paulus. São Paulo:2005.

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Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.