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por Andrea Pavlovitsch

Quando faltam as palavras

Não sou boa para falar. Não sei, sempre fui assim. Tenho a voz baixa, preciso me esforçar pra ser ouvida e se grito demais fico uma semana com dor de garganta. Mais ou menos como estou agora. Com muita, muita dor de garganta.

E não é porque eu não tente falar ou não tenha coragem. É porque eu choro. Detesto isso em mim, eu choro quando preciso falar alguma coisa importante para os outros. Claro que isso não inclui a minha vida profissional. Nesta eu sei falar, falo muito bem, dou até cursos e palestras. Mas não é deste falar que eu estou falando, por mais estranha que pareça a frase. É o falar dos sentimentos.
E sei que isso não é exatamente fácil para ninguém. Deve até ter uma pessoa ou outra que faz isso de uma maneira super Manuel Carlos, mas acho que a grande maioria pensa dez vezes antes de abrir a boca. Falar de sentimentos é muito, muito, muito complicado. Falar de sentimentos expõe as suas feridas, aquelas que você tenta esconder até de si mesma. O poder da palavra é alto, é grande. Basta lembrar de alguma coisa que seu pai ou mãe lhe disse na infância ou adolescência que te magoou. Lembra? Pois é, este mesmo. As palavras podem ainda ecoar dentro de você como no exato instante que aquilo aconteceu. Elas são as palavras mudas mais duras, mais cruéis, mais sem sentido. E para você, elas podem ainda soar tão alto como naquele dia.

E sabemos disso, como sabemos. E sim, temos medo do nosso enorme poder nas nossas palavras. Palavras escrevem o sentimento no ar, perpetuam. Posso lembrar de algo que me disseram há anos e sei que posso dizer coisas que faça os outros lembrar disso pra sempre. Sim, tenho medo da reação das pessoas. Tenho medo de expor coisas que são tão minhas que doem em sair. Falar é como um parto, dolorido, sangrento, cheio de gritos de horror. Palavras mal ditas (e deve ser daí que vem o termo maldição) são veneno puro. E claro que todos nós dizemos coisas das quais nos arrependemos e, principalmente, pensamos coisas das quais nos arrependemos. E não queremos nos arrepender. Não queremos, principalmente, que os outros não nos ame mais. E não queremos, principalmente, ouvir da boca do outro aquilo que pensamos ser verdade sobre nós mesmos.

Mas aprendi uma coisa: não é o que você fala, mas como você o faz. Com que segurança, com que maestria. Admiro pessoas que sabem usar as palavras como profetas, gurus, políticos. Por mais que os últimos, muitas vezes, as usem para o mal (não generalizando, claro que existem políticos maravilhosos também).

Então eu encontrei a escrita. A palavra escrita não tem o poder da palavra falada e dói menos. Lembro que eu costumava discutir relação por mensagens de texto ou e-mails gigantes com todos os tipos de ofensas e xingamentos possíveis. E como me arrependo. Parece que quando não escutamos a nossa voz dizendo aquilo, não fomos nós que falamos. Parece que se está escrito, não é tão verdade, ou é uma verdade mais profunda e mais pensada. Mera ilusão e, um conselho, se eu puder dar um é: nunca mande uma carta (e-mail, torpedo, etc) antes de 24 horas depois de escrever, principalmente se está com raiva da pessoa. E eu, só pra garantir, deixei de lado meu MSN Messenger, só pra garantir também. Porque talvez eu saiba que aqui dentro existe uma agressividade ferrenha e uma língua felina querendo sair. Talvez exista alguém que pense demais, que sinta demais, que doa demais e que quer jogar isso tudo em cima de alguém pra ver se pára de doer. As minhas feridas profundas, mágoas, fivelas fechadas, faixas que circulam e que querem só ser libertadas.

Não sei falar de pouco. Sou pessoa de muito! E talvez tenha optado em algum momento, pelo silêncio. O silêncio que não cura a minha dor de garganta. Um silêncio autoimposto e autoimpostor. Um silêncio que me mata aos poucos, e que não faz questão nenhuma de falar.

Quero falar. Só não encontro um jeito de fazer isso. Sem chorar.

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Andrea Pavlovitsch

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Psicoterapeuta, taróloga e numeróloga, comecei minhas explorações sobre espiritualidade e autoconhecimento aos 11 anos. Estudei psicologia, publicidade, artes, coaching e várias outras áreas que passam pelo desenvolvimento humano, usando várias técnicas para ajudar as mulheres a se amarem e terem uma vida de deusa. Mãe da Nina de quatro patas, gosto de viajar, ler e sempre continuar estudando.

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