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por Andrea Pavlovitsch

Seja aquilo que você quer ser

Michelangelo (sim, aquele cara que pintava e esculpia na Renascença, lembra?) dizia que ele não esculpia, de fato. Ele olhava para a pedra e via a estátua que já vivia lá dentro. Aí ele usava seu material e trabalho e suas mãos habilidosas e libertava o ser que habitava a pedra. Essa história é muito bonita e, para mim, muito real.

Estes dias eu acessei, meio sem querer, um arquivo de fotos antigas. Algumas com até 10 anos de vida. E lá eu me vi. Vi a mim mesma na infância, bem bebezinha. Vi criança, doida falando ao telefone. Vi uma fase em que eu era adolescente e meio chata (como devemos ser na adolescência). Me vi na faculdade, mais gorda, mais magra, de cabelos pretos, de cabelos curtos, ruiva, loira e de cabelos mais longos. Mas uma coisa que sentia nas fotos, uma certa tristeza, um tipo de melancolia no meu olhar. Melancolia que eu não tenho mais.

Mas me vi, mesmo assim, mais leve. Mais jovem, mais solta. Uma mulher mais menina, uma menina mais faceira, alguma coisa que eu devo ter perdido no meio do caminho para a maturidade. Alguma coisa que eu decidi resgatar. Mas só isso mesmo. O resto está bem melhor agora.

Um dia, alguns anos atrás, eu decidi (ou encontrei) quem eu era. Tudo: profissão, estilo de vida, imagem pessoal. E aí corri atrás. Eu queria ser aquela. Eu queria os cabelos mais loiros e compridos. Eu queria uma vida saudável, fazer exercícios e ir à praia (mesmo no inverno). Eu queria curtir o pôr do sol, ouvir mais música, sentir mais a brisa do mar. Queria roupas mais simples, mais confortáveis, mas estilosas. Queria escrever e ser lida. Queria ser quem eu sou hoje.

E a pergunta é: eu defini quem eu queria ser ou só encontrei a estátua dentro da pedra de mármore? Não sei, talvez as duas coisas. Talvez algumas coisas que eu tenha hoje são escolhas conscientes. Outras são os achados, os imutáveis que fazem parte do meu temperamento. Mas, de qualquer maneira, quando eu me vi assim, do jeito que eu sempre quis, me deu uma alegria imensa. Nada de traços de melancolia no olhar. Nada de peso, de falta de leveza. Descobri que sim, eu sou um pouco de cada uma que eu já fui: a criança, o bebê, a estudante, a filha, a tia, a amiga. Ainda tem um pouco de morena em mim, um pouco de pensativa. Ainda existe um meio termo para as coisas, alguns medos e muitas alegrias. E hoje, às portas dos 40 anos, eu posso dizer que sou quem eu quero ser.

Não importa quantos anos você tenha. Importa que você decida e descubra quem você é de verdade. Que você se olhe no espelho e pense: quem é essa pessoa? Do que ela gosta, o que ela faz de especial e único? O que ela quer se tornar. Sempre é possível. Algumas coisas precisamos adaptar, outras são mais fáceis. Algumas coisas vão levar um tempo maior, outras vão ser bem rápidas, como uma ida ao cabeleireiro. Mas pense antes, reflita e sinta quem você é e o que você deseja se tornar. 

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.