por Hellen Reis Mourao

Rapunzel, jogue suas tranças!

Rapunzel é um conto de fadas dos irmãos Grimm, publicado em 1812.

Conta a história de uma menina que ficou presa em uma torre sem portas e janelas por uma bruxa. Seu cabelo, nunca cortado cresce como uma imensa trança a qual a bruxa sobe todos os dias para ver a mQuanenina. Um dia, um príncipe passando pelo local, ouve Rapunzel cantando, e se apaixona, decidindo fugir com ela. Ao enfrentar a vilã, é castigado com uma cegueira e Rapunzel tem suas tranças cortadas e é expulsa para o deserto. Mas, no final da história, sua visão é recuperada pelas lágrimas da amada, e o casal alcança o esperado final feliz.

A História da Rapunzel nos mostra como uma mãe possessiva pode enclausurar a filha e transformando-a em seu bem mais precioso. O conto começa com um casal, cuja mãe grávida tem um desejo enorme de comer uma hortaliça que crescia no jardim de uma bruxa vizinha. O pai rouba duas vezes para a mulher insatisfeita, mas a bruxa o flagra e concorda em absolvê-lo desde que a criança lhe fosse entregue ao nascer.

Uma das características mais marcantes no feminino é a insatisfação. E quando a mulher não desenvolve característica do seu animus, como a objetividade, ela se torna como a mãe de Rapunzel, que não avalia o perigo de roubar coisas e está sempre insatisfeita, sua fome não tem fim.

A mãe e a bruxa são na verdade a mesma pessoa e o pai de Rapunzel é um homem fraco que não consegue dizer não a mulher. Ou seja, o animus da mãe da menina não é desenvolvido. A mãe na verdade despreza o masculino e quer o bebê só para si, o homem é apenas um instrumento para a satisfação de seus desejos e não um companheiro.

Quantas mulheres modernas não fazem isso? Quantas não depositam em seus filhos toda a sua realização e felicidade? Aquele bebê simplesmente não pode crescer e abandoná-la!

A História da Rapunzel nos mostra como uma mãe possessiva pode enclausurar a filha e transformando-a em seu bem mais precioso

Além disso, muitas mulheres, infelizmente, afastam o marido do cuidado do filho, não permitindo a sua participação e julgando-o incapaz.

Mas a bruxa do conto não é uma bruxa comum. Ela não tem inveja da beleza da menina, ela não tem ressentimento nem quer se vingar, pelo contrário, ela é uma mãe extremamente devotada. Boa até demais! E ser uma mãe boa demais aprisiona o filho em uma simbiose.

Rapunzel foi presa em uma torre para que ninguém pudesse vê-la, pois aos 12 anos já estava se tornando atraente ao sexo oposto. Ainda hoje, muitas mães costumam “aprisionar” as filhas com medo da sexualidade delas. O interessante é que ocorre justamente o contrário. No conto original, Rapunzel ficava grávida do príncipe. O conto foi mudado devido a moral da época. Mas isso é extremamente comum, “prender demais” pode ter o mesmo efeito que “soltar demais”.

Mas para se tornar independente, a menina transgride. E toda transgressão recebe uma punição. Nesse caso foi a expulsão do paraíso materno, com a simbologia do corte de cabelo, que pode ser analisado como o corte do cordão umbilical psicológico que prendia mãe e filha.

E Rapunzel vai viver sozinha, no deserto, para amadurecer. No conto original, ela da luz a gêmeos, ou seja, ela passa de filha a mãe.

E só após passar um bom tempo na solidão para que possa desenvolver suas próprias capacidades internas de sobrevivência é que ela pode então se unir ao seu masculino. Pois ela está amadurecida, independente, segura, para receber esse masculino diferente da mãe. Para recebê-lo como seu companheiro de jornada no processo de individualização.

Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.