por Ana Beatriz Monteiro

Um assobio de saudade

Saudade. Substantivo feminino singular. Do latim, solidate. Segundo o dicionário:

Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhado do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia.

Pesar da ausência de alguém que nos é querido.

Planta da família das asclepiadáceas.

Assobiador.  

Até olhar no dicionário, eu nunca tinha ouvido falar da associação de saudade com assobio. Mas combina, não é? Assobiar uma música antiga, que traz lembranças, que dão saudade.

É engraçado pensar na saudade racionalmente. Como uma definição de dicionário. Afinal, saudade é sentimento. Um daqueles que nos abala. Que faz a gente se afogar um pouco, entre as lembranças, entre a nostalgia, entre a vontade - talvez impossível - de ter aquilo que não podemos mais ter.

Saudade é ruim? É.

Mas nem sempre. Afinal, saudade a gente sente de algo que foi bom. E se estamos sentindo saudade, é porque ficamos tão felizes antes, que agora vivemos na nostalgia daquele momento bom. E quem somos nós para recusar felicidades presentes, só para não sentirmos saudade depois?

Ah, mas e a dor de uma saudade? Quantas músicas e poesias não foram escritas, condenando esse terrível incômodo, essa abstração que dói igualzinho uma dor física? Sim. Não podemos nos enganar. Saudade dói, dói sim. Mas ela é a consequência inevitável de uma vida bem vivida.

Seja boa ou ruim, a saudade vem. Em todas as suas formas, maneiras, ritmos e sabores. O melhor a fazer, é aceitar. E, talvez, aproveitar o que de bom ela trouxe.  

E também, às vezes, se acomodar feliz na paz de uma saudade. Aquela que guarda uma lembrança de infância, uma tarde de sol, um cafuné de vó. Lembrar da simplicidade que têm as pequenas alegrias. Acreditar na esperança de que elas virão de novo, essas simples felicidades.

Porque se a palavra é praticamente impossível de ser traduzida para outras línguas, o sentimento que ela traduz é simples de entender. Saudade é lembrança. E quanto mais lembranças felizes, mais saudades.

 

Ana Beatriz Monteiro

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Futura roteirista, nerd e viciada em chá de maçã. Acredito, mais do que tudo, no poder das palavras. Amo fotografia e meu sonho é correr o mundo e trazer muitas fotos pra casa. Aí morrer de saudade e querer tudo de novo, outra vez.