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por Andrea Pavlovitsch

Aceitar-se como se é

Fui na minha médica de rotina outro dia. Ela é uma excelente médica e me acompanha há anos. É cardiologista, geriatra e estudante de várias técnicas e inovações. Sempre sabe tudo, está por dentro das medicações e tudo mais. Realmente aquelas doutoras que existem poucas por aí, sabe?

Lá pelas tantas, depois de ver que todas as minhas taxas estão boas (ou quase) e que eu poderia até deixar de usar o remédio da tireoide, ela me falou de um remédio para emagrecer. Na verdade, ela sabe que eu não posso tomar essas coisas, então me indicou um remédio novo, indiano, que é feito de Garcinia e não sei o que mais e que está ajudando as pessoas a emagrecer. Então, mas eu não pedi nada neste sentido. Aliás, estou muito bem, obrigada.

Ainda estes dias eu estava sentada com a minha sobrinha de cinco anos e ela soltou “A Dedei precisa fazer regime”. Sei que ela é criança e me ama de qualquer maneira, mas já está contaminada pelo padrão vigente.

E aí fico eu aqui, no meu corpo, escutando isso o tempo todo. Pelas capas das revistas, pelas chamadas de posts para emagrecer, pelos “milagres” que as pessoas fazem pela sua aparência. Fico aqui tentando me sentir amada. Tentando não sentir inveja de cada mulher mais magra que passa por mim na rua. Tentando entender que sim, eu sou uma mulher sexy e muitos homens tem tesão por mim. Mas, e essa guerra 24 horas por dia?

As críticas não vêm abertas. Elas são disfarçadas de amor e preocupação. Mas por mais que saiam do outro realmente com essas intenções, elas reiteram que existe alguma coisa muito errada com você. Algo que o outro se sente no direito de apontar. Ele se sente no direito de dizer “Está vendo isso aí? É errado”. Mesmo que meu amor próprio, meu namorado, minha família me ame. Mesmo que eu seja sim considerada uma mulher bonita. Ainda assim, o outro se sente no direito de apontar um suposto defeito meu.

E não, isso não acontece só com o peso extra. Acontece com tudo. Com o tipo de cabelo que você adotou, com as roupas que escolhe vestir, com a maquiagem, com as companhias que decide andar, com o salto do sapato, com a sua profissão, com a sua cor, com a sua altura, com a sua orientação sexual. Parece que existem olhos de águia em cada ser humano, vasculhando possíveis defeitos no outro.

Sim, e existe, é um olho, na verdade, de autoreprovação. Quando eu me olho e me enxergo cheia de problemas, de defeitos, eu me torno menos tolerante para as escolhas dos outros. Quando eu percebo o “quão errada” é a minha aparência, não por ela ser, mas porque eu encasquetei com isso, vou mesmo apontar a aparência do outro com uma ferocidade cruel. Então, não é uma questão de eu mudar alguma coisa em mim, mas do outro mudar alguma coisa em si.

Não sou eu. É você mesmo. São seus olhos contaminados que enxergam o mal em mim. E a minha obrigação é criar uma barreira e um limite que deixe bem claro que não, eu não vou cair na sua rede. Eu não vou me sentir mal pelo seu comentário maldoso, ou pela capa da revista ou em ver como a Déborah Seco é disciplinada e fez até jejum para ter o corpo “certo” depois da gestação. Isso é problema dela, e se isso a faz feliz eu aplaudo de pé. Mas não venha jogar as regras que eu não criei na minha cara, pelo amor de Deus.

Estou e sou feliz. E tenho pessoas que me amam e me desejam assim, do jeitinho que eu sou. E são essas pessoas que eu quero perto de mim. Eu perdoo sempre, cada comentário, porque sei que ninguém tem realmente culpa. Sei que estamos todos contaminados demais por essas “verdades”. Mas limito meu espaço nelas. Hoje e sempre.

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.