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por Hellen Reis Mourao

Aladim e a lâmpada maravilhosa

Aladim e a lâmpada maravilhosa é um dos contos mais populares da coletânea As Mil e uma noites. Aladim significa em árabe “elevação da fé”, e a origem específica do conto é difícil precisar, mas sabe-se que sua história foi acrescentada à coletânea por Antoine Galland, responsável pela tradução que popularizou a obra no Ocidente.

Nessa versão o protagonista Aladim é descrito como um jovem adolescente que se recusa a aprender o ofício do pai, que é alfaiate, sendo descrito por sua mãe como imaturo, "esquecido que não é mais criança". Mesmo depois da morte do pai, quando tinha quinze anos, ele não se modifica. Ou seja, Aladim é um típico adolescente rebelde, que não se compromete com a realidade da vida cotidiana. Em vez disso ele foge dela por ser dura demais e vive no mundo das ideias e possibilidades.

Seu pai é um alfaiate e ganha muito pouco e assim o menino e a família passam muita dificuldade econômica.

Aos 15 anos, o rapaz não concorda com as perspectivas dos pais para seu futuro

Quinze anos é uma idade muito importante. É a fase onde o menino deve abandonar a infância e começar a se firmar no mundo. Nas sociedades mais primitivas, era comum um rito de passagem para o menino de forma a retirá-lo da casa da mãe e fazê-lo homem. E Aladim irá passar por um rito onde deixará a sua condição infantil para amadurecer.

Com a morte de seu pai entra em cena um bruxo que se apresenta a ele como tio paterno. O bruxo, ou feiticeiro, faz parte da mesma imagem paterna de Aladim. É o lado sombrio dessa imagem que se manifesta no momento que o pai cansado do comportamento infantil do filho e das lamúrias da mulher, resolve tomar uma atitude. A sombra do pai simplório se manifesta então em uma ganância desmedida.

O mago vai jantar na casa de Aladim, e após ouvir as queixas da mãe sobre o menino, promete montar para o rapaz uma bela loja, cheia de tecidos finos, para que Aladim pudesse viver honestamente como comerciante. Mas ele engana o rapaz e o leva para um local distante. Essa figura sombria é quem faz com que o menino saia de casa e dos braços maternos.

Quando chega ao local com o bruxo, a terra treme e se abre diante dos dois, deixando ver uma pedra com uma argola de bronze no meio e Aladim quer fugir, mas o mago o detém, dizendo ao menino que embaixo da pedra há uma caverna com um tesouro que o fará o homem mais rico do mundo, mas em troca o menino deve lhe dar uma lâmpada mágica. Ele então entrega um anel mágico para proteção de Aladim que entra na caverna e pega a lâmpada, mas o mago tenta ludibriá-lo na saída da gruta, e ele acaba preso na caverna com a lâmpada.

Essa caverna pode ser entendida como um símbolo do útero materno. Vários heróis já passaram pela situação de serem “engolidos” antes de conseguirem empreender suas jornadas. Isso significa que o herói antes de partir para a ação deve vencer sua ligação com o passado.

O gênio que habita a lâmpada se manifesta após um gesto acidental de esfregá-la e concede a Aladim a realização de seus pedidos, que são todos consumados. A lâmpada é na verdade uma lamparina semelhante àquelas utilizadas na iluminação doméstica.

Ao esfregar a lâmpada, Aladim se deparou com a mágica figura do Gênio

Algo tão simples guardado junto a um tesouro de jóias, pedras preciosas e ouro, não poderia ser encontrado por alguém que possui uma ambição tão desmedida. Aladim é o herói certo para encontrar o gênio.

O jardim encantado onde se encontra pode ser compreendido simbolicamente como um mundo onde estão latentes as potencialidades e experiências da história pessoal e coletiva. O gênio é uma espécie de espírito que rege o destino de alguém ou algum lugar. Um guardião ou tutelar do qual se pensava serem designados para cada pessoa quando do seu nascimento afim de que cumprisse seu destino.

Em termos psicológicos, significa que Aladim aceitou seu destino e entrou no processo de individuação. Ele passa a perceber que há algo maior que sua consciência que move a sua vida. Um dos desejos satisfeitos de Aladim é o de se tornar um príncipe e desposar a princesa, filha do sultão. É digno de nota que o herói não fez nada demais para transformar sua realidade, apenas acidentalmente esfregou a lâmpada. O ato de esfregar a lâmpada trouxe a luz e a consciência ao rapaz.

Aladim apenas com esse gesto involuntário consegue transformar radicalmente sua realidade pessoal tornando-se príncipe e adulto. Ele se casa e passa a ser o governador de seu reino. Após se casar, Aladim ainda enfrenta mais duas provações, entretanto com a ajuda do gênio se sai bem e leva uma vida plena com sua esposa.

Essa história vem nos mostrar que devemos sempre seguir nosso destino e não viver a vida de outro, ou o que nos é imposto pela família. E que mesmo assim teremos provações e dificuldades, porém a recompensa da plenitude de sermos nós mesmos traz o verdadeiro tesouro e assim podemos ser os governantes de nossa própria vida.

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Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.