por Hellen Reis Mourao

Pã, o Deus dos bosques

Pã na Grécia, ou Lupércio em Roma é o Deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores. Filho de Hermes e da ninfa Dríope, habita em grutas e vaga pelos vales e pelas montanhas, caçando ou dançando com as ninfas.

É representado com orelhas, chifres e pernas de bode, amante da música, traz sempre consigo uma flauta. É temido por todos aqueles que necessitam atravessar as florestas à noite, pois as trevas e a solidão da travessia os predispunham a pavores súbitos, desprovidos de qualquer causa aparente e que são atribuídos a Pã; daí o nome pânico.

Ele também teria sido um dos filhos de Zeus com sua ama de leite, a cabra Amalteia e seu grande amor foi Selene, a personificação da Lua. Em uma versão egípcia, Pã estava com outros deuses a margem do Rio Nilo e surgiu Tifão, inimigo dos deuses. O medo transformou cada um dos deuses em animais e Pã, assustado, mergulhou em um rio e disfarçou assim metade de seu corpo, sobrando apenas a cabeça e a parte superior do corpo, que se assemelhava a uma cabra; a parte submersa adotou uma aparência aquática. Zeus considerou este estratagema de Pã muito esperto e, como homenagem, transformou-o em uma constelação, conhecida como Capricórnio.

O filosofo grego Plutarco afirmou que Pã estava morto. Isso significa que Pã e seu simbolismo não é bem aceito pela sociedade ocidental.

Seu aspecto foi associado ao diabo, o que denota que suas características foram associadas ao mau. Além disso, Rafael Lopez-Pedraza em sua obra “Hermes e seus filhos”, associa Pã à masturbação, que mesmo a despeito do desenvolvimento intelectual da sociedade ocidental, é vista ainda como um tabu e como algo sujo.

A masturbação quando extrema pode ser destrutiva, levando a um comportamento obsessivo compulsivo, afastando inclusive o indivíduo do contato afetivo proporcionado pela relação sexual. Entretanto de forma positiva ela favorece um relacionamento com o corpo, ligando as imagens sexuais ao corpo físico e emocional.

Essa morte simbólica de Pã, mostra que perdemos o contato com nosso corpo físico, com seus desejos e com o corpo emocional.  

Mas Pã é o Deus do pânico, da loucura e dos pesadelos. Todos os que adentravam as florestas podiam ser tomados pelo pânico e pela loucura. A floresta simboliza o inconsciente e adentrar nesse mundo pode fazer aflorar o pânico diante de nossos aspectos instintivos reprimidos e causar uma loucura momentânea.

Pã é da metade para baixo bode, simbolizando o aspecto animal da natureza humana e seu lado instintivo. Sendo símbolo dos excessos, desejos irrefreáveis e incontroláveis que move nossa natureza animal. O fato de estar nas pernas, significa que não temos consciência nem controle racional sobre ele. Contudo, mesmo com esse aspecto era capaz de produzir sons belíssimos com sua flauta, mostrando o lado elevado e belo da criação humana.

A associação de Pã com Selene, a Deusa da Lua, mostra que ele possui uma íntima ligação com nossos aspectos lunáticos. Quando Pã aparece, esses aspectos de loucura e pânico podem trazer a cura, pois assim podemos compreender melhor essas patologias atribuídas a ele.

Esse deus pagão precisa encontrar seu lugar novamente em nossa consciência, pois como cada um dos outros deuses, sendo reprimido e esquecido se volta com toda a força em seu aspecto destrutivo. Ele foi o deus que sofreu mais repressão com o advento do cristianismo. Mas sem ele perdemos nossa dimensão corporal.

Hoje temos a expressão “bode expiatório”, que significa alguém sob o qual projetamos nossa sombra, nosso lado inferior, animalesco e desprezível, tentando nos livrar da culpa e dos nossos problemas. Pã é esse bode, que deve ser reconhecido em nós mesmos, para que não mais projetemos nossas sombras e assim passemos a ter mais consciência, contribuindo para um mundo mais humano e mais belo.

Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.