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por Hellen Reis Mourao

Dionísio, o deus do vinho e da loucura

Dionísio (Baco para os romanos) é o deus do vinho, da loucura, do êxtase e da tragédia. Filho de Zeus, porém dentre os deuses olímpicos foi o único a ter mãe mortal, Semele.

O mito de seu nascimento conta que primeiramente da união entre Perséfone e Zeus (sob a forma de serpente) surgiu o deus Zagreu. Hera, ciumenta, persuadiu os Titãs a atacarem o deus enquanto ele se olhava em um espelho. Não só os Titãs o despedaçaram como também comeram os pedaços do seu corpo, com exceção do coração que Atena resgatou e que trouxe a Zeus, e este o usou para preparar uma poção com a qual engravidou Semele, que então gerou Dionísio.

Semele ficou grávida, o que provocou o ódio de Hera. Para se vingar disse a Semele que pedisse ao amante para se mostrar em todo o seu esplendor, da mesma forma que aparecia para Hera. Não podendo negar seu pedido, Zeus aparece em sua carruagem de raios e trovões, o que levou Semele à morte. Zeus pega então o menino prematuro e o costura em sua coxa. Ao nascer, Zeus enviou Dionísio à irmã de Semele, Ino, e o cunhado Atamante, e ordenou que fosse criado como menina. Mesmo assim Hera descobriu e enlouqueceu o casal que tentaram matá-lo, mas Zeus novamente o salva e o leva às ninfas do monte Nisa.

"Dionísio é um deus que está sempre rodeado de mulheres. Portanto o mundo feminino lhe é familiar.

Ele foi o primeiro deus a plantar e cultivar as parreiras, dessa forma ele passa então a ser tratado como deus do vinho. As árvores a ele consagradas são: A videira, a figueira, a hera e os pinheiros. Seus animais consagrados são: O touro, o bode, a pantera, a corça, o lince, o leão, o leopardo, o tigre, o asno, o golfinho e a serpente.

Dionísio é um deus que está sempre rodeado de mulheres. Portanto o mundo feminino lhe é familiar. Ele é também um deus da vegetação e está intimamente ligado a Demeter.

Como arquétipo, Dionísio representa a intensidade emocional capaz de dissolver os limites do ego. Por isso ele é um mobilizador de fortes emoções, desde as mais elevadas até as mais vis.

Nos mistérios Eleusis, Dionísio descia ao submundo e se unia a Perséfone, sua mãe, sendo uma representação do filho-amante da deusa.

Pelo fato de ser retratado por vezes como criança, Dionísio se aproxima da figura do eterno adolescente, que é caracterizado pela pessoa intensa e emotiva, que não consegue encontrar objetividade em meio as suas paixões e é devorado pelas emoções. Vive em busca do êxtase e frenesi. É viciado em fortes emoções e por essa razão vive em busca de sexo ou drogas.

Dionísio se aproxima da figura do eterno adolescente, que é caracterizado pela pessoa intensa e emotiva

A mãe biológica de Dionísio morreu, sendo então cercado por amas de leite e cuidadoras. A separação física entre mãe e filho aqui nos mostra que acarreta uma idealização da figura materna e no caso dos homens, ocorrerá uma busca por mulheres que sejam mães e amantes ao mesmo tempo, sendo que essas nunca chegarão aos pés de sua mãe interna.

Dionísio não teve uma relação direta com Zeus, assim como seus irmãos Apolo e Hermes. Ele não figurava entre os olímpicos e permanecia em meio a natureza. Mas apesar disso Zeus reconhecia sua importância, pois sendo um deus ligado ao poder e a consciência ele sabia que essa força precisava ser equilibrada pelo caos e pela simplicidade representados por Dionísio.

Ele pode ser considerado o xamã, aquele que torna possível o contato com o mundo dos arquétipos por meio dos sonhos e das fantasias. Não é a toa que tem uma ligação tão forte com as mulheres, pois essas têm muito mais facilidade em entrar em contato com o irracional. Entretanto, ele pode ser um grande aliado no desenvolvimento da psique masculina, fazendo-o entrar em contato com seu lado obscuro e emocional.

O êxtase e o arrebatamento do deus podem transformar o individuo de forma positiva e negativa, dependendo da força do Eu. Os felinos como a pantera e o lince, dedicados ao deus, mostram isso. Ambos são animais belíssimos e fascinantes, mas ao mesmo tempo sanguinários. Suas Mênades quando tomadas pelo deus se transformavam em enfurecidas e assassinas.

Se o ego não tiver alguma força, existe o perigo de literalizar essas emoções. Muitos assassinos são movidos pelo aspecto místico de Dionísio. Mas se o ego estiver saudável existe a possibilidade de ampliação da personalidade e de vivenciar emoções antes desconhecidas.

O desmembramento de Dionísio simboliza o estar repartido entre opostos. Dividido entre várias possibilidades causando sofrimento. E isso possibilita a tomada de consciência quando percebemos vários aspectos incongruentes em nós mesmos.

Mas para que esse desmembramento seja positivo ele deve ser intercalado com a consciência, assim como mostra o mito onde Apolo e Dionísio revezavam o oráculo de Delfos. Apolo, deus solar, patriarcal, representante da consciência cedia ao irmão o oráculo durante três meses do ano. Isso significa que, em uma sociedade como a nossa centrada no logos e na consciência, devemos ceder um espaço em nossa vida ao irracional, ao êxtase e ao contato com nosso inconsciente para que possamos nos refazer e renascer, assim como o deus, para uma nova forma mais completa e mais ampliada.

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Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.