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por Hellen Reis Mourao

Hefesto, deus da forja

Hefesto ou Hefaisto é o deus grego da forja, conhecido como Vulcano pelos romanos. Seu nome significa uma junção de água e “acender, pôr fogo em”.

Hefesto era coxo, feio e mutilado. Ele foi precipitado pelo relâmpago, do céu para a terra (ou para a água). Ele é o fogo nascido nas águas celestes, como Agni, o deus do fogo na Índia, que tem quase o mesmo nome que o deus grego.

O deus da forja teve um nascimento bastante complicado. Segundo Homero, ele era filho de Zeus e Hera, ou segundo Hesíodo, somente filho de Hera. Na versão de Hesíodo, Hera encolerizada pelo nascimento de Atena, que saiu da cabeça de Zeus, gerou sozinha um filho.

Sobre seu defeito físico também há duas versões: em uma delas Hera discutia violentamente com o marido a propósito de Héracles e, Hefesto ousou tomar a defesa da mãe. Zeus, enfurecido, agarrou-o por um dos pés e o lançou para fora do Olimpo. Hefesto rolou pelo espaço o dia todo e somente ao pôr do sol caiu na ilha de Lemnos, onde foi recolhido pelos Síntios, considerados os primeiros habitantes da ilha. Com o tombo, o deus ficou aleijado e manquitolava de ambas as pernas, o que sempre lhe trouxe muitos problemas de ordem psíquica. Na outra versão Hefesto já teria nascido coxo e deformado. Humilhada com a fealdade e a deformação do filho, Hera o lançou do alto do Olimpo. Após rolar pelo vazio durante um dia inteiro, o infeliz caiu no mar, onde foi recolhido por Tétis e Eurínome, que lhe salvaram a vida e o "guardaram" durante nove anos em uma gruta submarina, o que mostra com clareza o longo período iniciático do deus coxo.

Mas o cerne do mito de Hefesto é justamente o ser desprezado pela mãe. Vemos esse desprezo da mãe, devido a defeitos físicos também no mito africano de Obaluaê, que foi desprezado e abandonado por Nanã, sendo criado por Iemanjá, que se compadeceu do rapaz.

No tempo em que ficou na gruta aprendeu a forja do ferro, do bronze e das pedras preciosas, se tornando o mais engenhoso dos deuses. Isso mostra que Hefesto transformou sua limitação em um ato criativo. Ele construía verdadeiras obras primas em beleza.

Hefesto foi casado com Afrodite, a deusa da beleza e do amor. Mas esta o traía com Ares. Um dia, porém, devido ao descuido dos dois, o deus Helio, o Sol, surpreende os amantes e avisa Hefesto. O deus que sabe atar e desatar, então prepara uma rede mágica e prende o casal ao leito.

Hefesto também, a pedido de Zeus, modelou em argila uma mulher ideal, fascinante, irresistível, Pandora. Não a modelou apenas, foi além do artista: animou-a com um sopro divino.

A despeito do seu problema físico, Hefesto era valente e tomou parte em algumas batalhas, uma vez que pertence ao elemento fogo, ígneo. Ele é o fogo telúrico, provindo do interior da terra. A lava do vulcão.

Infelizmente esse é um arquétipo desvalorizado e rejeitado em uma cultura que privilegia no homem o ato heróico, ou o intelecto brilhante. Tudo o que é terreno, ou seja, ligado a Mãe Terra, todo sentimento apaixonado e os instintos não são bem visto. Vide que Hefesto era constantemente insultado e ridicularizado quando aparecia no Olimpo.

Mas esse é um belo arquétipo! Pois é através do fogo das fortes emoções, como a paixão, a cólera e a raiva que é possível moldar e forjar nossa obra prima interna. Hefesto mostra que o ato criativo não provém de um estado de calma e quietude, mas do fogo que se agita em nosso interior. Sua criatividade surge de suas dores emocionais.

Ele é então, o criador ferido, que forja a nossa alma. Esse é o arquétipo que fornece uma forma tangível às nossas emoções, tornando algo interno totalmente visível aos olhos.

Sua ligação com Afrodite e com outras belas mulheres mostra que apesar de coxo, Hefesto como símbolo da lava do vulcão, representa um intenso fogo sexual e erótico contido no corpo, que pode se expressar também por meio da guerra (por essa razão era rival de Ares). Entretanto, apesar de intensa é uma sexualidade contida, que pode vir a tona de forma inesperada.

Hefesto é, então, o amor não consumado e não correspondido, que inspira o trabalho criativo. A paixão que não pode ser expressa por meio do corpo e que se materializa fora dele.

 

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Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.