por Hellen Reis Mourao

Prometeu, o criador da humanidade

Prometeu não era um deus grego, mas um Titã, irmão de Atlas, Epitemeu e Menoécio. Ele foi um grande defensor da humanidade. Segundo seu mito, foi o criador da humanidade, construindo o corpo do primeiro homem com uma mistura de barro e água (suas próprias lágrimas, segundo alguns), no qual a deusa Atena introduziu vida e alma.

Era conhecido por sua astúcia e  inteligência e foi responsável por roubar o fogo dos deuses e o dar aos mortais. Zeus teria então punido-o por este crime, deixando-o amarrado a uma rocha por toda a eternidade enquanto uma grande águia comia todo dia seu fígado - que crescia novamente no dia seguinte. O mito foi abordado por diversas fontes antigas (entre elas dois dos principais autores gregos, Hesíodo e Ésquilo), nas quais Prometeu é creditado - ou culpado - por ter desempenhado um papel crucial na história da humanidade.

O fogo simboliza a habilidade de lidar com as artes, pois com ele podemos cozinhar, podemos forjar coisas belas, etc. Mas também simboliza a consciência, pois a descoberta do fogo trouxe o

desenvolvimento para a humanidade e com isso houve um avanço intelectual, o que proporcionou um aumento do conhecimento de si próprio e o questionamento sobre quem somos e para onde iremos. Isso demonstra que para criar consciência temos que enfrentar os deuses e pagar o preço por isso.

Os deuses são nossos complexos interiores e, pelo que notamos no mito de Prometeu, ficam irados e descontentes quando os humanos tentam se aproximar deles e se tornarem parecidos com eles.

Outro aprendizado importante que temos com Prometeu é o do sacrifício. Todas as vezes que buscamos mais consciência e temos mais autoconhecimento, devemos sacrificar algo. Sem o sacrifício nos tornamos inflados e começamos a nos achar semelhantes aos deuses.

Para se vingar do fogo roubado, Zeus ordenou a Hefesto a criação de uma estátua que tivesse a beleza dada por Afrodite, a oratória de Hermes, a beleza e musicalidade de Apolo, a inteligência de Atenas, mas também com dos defeitos de cada um. Essa mulher se chama Pandora, com sua famosa caixa que trouxe os males ao mundo. Esses defeitos dos deuses, como sua sede de vingança mostra nossa maldade interior, nossa sombra e nossa miséria interna. Eles são reflexos de nossos complexos mais escondidos.

Por isso não se pode ter consciência se não encararmos esses monstros internos. Vermos apenas nosso lado luminoso não nos leva ao crescimento e amadurecimento psicológico.

Poderia falar muito mais coisas sobre Prometeu, uma vez que o mito é extremamente rico e cheio de detalhes. Mas vou me atentar a esse aspecto da formação da consciência humana, juntamente com o sacrifício e o enfrentamento dos aspectos sombrios encarcerados em nosso eu mais recôndito.

Prometeu é libertado posteriormente pelo semideus Hércules. Ao se ver livre, o titã fez um anel com parte da rocha do Cáucaso, onde ficou preso vivendo um sofrimento intenso, para lembrá-lo o tempo todo do sofrimento pelo qual passou.

Isso nos leva a concluir que quando passamos por um sofrimento intenso, ficamos marcados e carregamos essa marca conosco por onde vamos. Olhar para essa marca pode trazer uma profunda sabedoria se conseguirmos absorver os aprendizados da vivência e não ficarmos mergulhados no amargor da dor passada.

Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.