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por Andrea Pavlovitsch

As “boas” e “más” mentiras

Se você tem alguma religião, não gostou nem de ler o nome desse artigo. Mas, acredite, existem mentiras boas e ruins sim, e é sobre isso que eu quero falar hoje. É bem interessante a condenação que a mentira exerce. É fácil encontrar pessoas que enchem o peito e dizem, em alto e bom tom, “eu odeio mentira” ou “jamais perdoaria uma mentira de alguém”. Mas, no fundo, bem lá no fundo, será mesmo que as mentiras não têm serventia?

Vamos pensar na estrutura da personalidade de uma pessoa. Dividimos em Self (o si mesmo, aquele eu lá de dentro) e Persona (ou personagens ou papéis que exercemos na vida). O Self é imutável, é aquela parte sua que não exerce nenhum papel, não é nada, não tem nem nome e nem CPF, é algo do seu espírito. Agora, você pode ser mãe, pai, namorada, filho, comerciante, educador ou motorista. Estes são os papéis que representamos, as máscaras que usamos socialmente.

A mentira costuma flutuar nesse meio. Quando você mente para o seu chefe, dizendo que chegou atrasado porque o metrô parou, está mentindo para quem? Sim, você conta a mentira e possivelmente ele acredita ou finge que sim, e ninguém se machuca. Mas analise profundamente isso e vamos pensar melhor. Até aqui, ela é uma mentira boa, já que te tirou do problema “atraso” no trabalho.

Supondo que você criou essa mentira quase “branca”, como dizem, porque está mesmo se atrasando para acordar vários dias. E está atrasando vários dias porque seu filho acabou de nascer e você não tem dormido muito bem. Seu chefe, pai de dois ou três, deve saber bem o que você está passando e perdoa. Sim, aqui é uma mentira boa, porque não está prejudicando ninguém (a priore e enquanto isso for temporário).

Mas suponhamos que não, você não tem nenhum problema, só está mesmo é cansado. Cansado, de saco cheio do trabalho e querendo ir vender água de coco em Porto Seguro. Mas você acha que precisa manter o emprego porque “estamos numa crise” ou porque “emprego está complicado lá fora” e isso está te fazendo se manter uma roda de rato, girando em torno de si mesmo.

Isso é uma mentira ruim. Não só para o seu chefe, que fica sem você no horário de serviço. Não só para a empresa como um todo, já que você está trabalhando sem nenhum estímulo, se sentindo mal. Mas, e principalmente, porque a grande mentira está sendo para você mesmo.

Talvez seu sonho de um trabalho legal tenha sido destruído e você resolveu que não vai mais tentar. Talvez você conte essas mentiras para si mesmo porque tem medo de mudar, medo de ir atrás do que realmente quer, medo da reação da sua família, medo de ficar sem dinheiro e passar fome. Assim, vai se mantendo nisso, mentindo para si e consequentemente para os outros, atrapalhando quem está lá de verdade. Caramba, essa sim é uma mentira nefasta e prejudicial. E você pensando que era só uma “mentirinha branca”, né?

Então, quando mentimos, precisamos sim nos perguntar o porquê. Algumas vezes não é nada, é só uma maneira de não arrumar uma confusão naquele dia ou não magoar alguém próximo, que é mais carente e não gosta de ser contrariado. Mas cuidado com as mentiras que conta para si mesmo. Estas, sim, costumam ser as grandes, que estão prejudicando você e outras pessoas de maneira realmente negativa.

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.