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por Andrea Pavlovitsch

As pequenas coisas da vida

Eu assisto muito Big Brother e lá eles falam muito de aqui dentro e lá fora, onde o primeiro é o jogo e o segundo é a vida real. Só que, pensando bem, o que mesmo que é a vida real? Hoje mesmo estou bem irritada. Estou doente há três dias, e aí a minha mãe vira pra mim e fala “cuidado, o fulaninho morreu justamente disso aí que você tem.” Quando cheguei ao consultório lembrei que minha impressora novinha só não imprime, o resto ela faz. O computador está dando tanto pau que mais parece a floresta amazônica e, a minha conta de telefone celular foi cadastrada no débito automático sem a minha autorização (e ainda foi cobrada duas vezes no mesmo mês com intervalo de dois dias e me dizem que o máximo que podem fazer é descontar na próxima conta). Além disso, tem todos os outros problemas o tempo todo: o excesso de peso, o trânsito, o dinheiro sempre faltando, as doenças crônicas, os joguinhos de família, a falta de namorado e problemas com um cheque que até hoje eu não consegui dar um jeito. Caramba, isso é a vida real?

“Claro”, você vai me dizer, estou olhando só o lado ruim. Sim, estou. Porque no final do dia, infelizmente para nós, humanos, é nisso que só conseguimos pensar. Quando deitamos nossas cabeças em travesseiros macios e confortáveis só nos vem à mente as faltas ou excessos que precisamos aparar. É aquela eterna impressão de que estamos atrasados para alguma coisa, que não sabemos o que é mesmo, que esquecemos, tivemos um branco enorme e não sabemos mais o que íamos falar. Essa é a vida que se chama de real. E não, isso não é a vida real. Estas são as situações da sua condição de ser humano encarnado. Já percebeu que, quando acontece uma tragédia no mundo ou a morte ou acidente de uma pessoa próxima, por exemplo, tudo isso fica pra segundo plano? Já reparou que neste momento tudo o que queremos é abraçar as pessoas que gostamos, ficar perto delas e pensar porque mesmo que ainda nos preocupamos com bobagens? Sim, bobagens sim. Porque são só situações e todas, todas as situações têm uma solução. Os chineses falam que para cada situação da sua vida você tem pelo menos, quatro soluções. Porque se você estiver parado, você poderá olhar pra cima, para baixo, para o lado direito e esquerdo. E é verdade.

Algumas pessoas são craques nisso de achar soluções de maneira muito rápida. Outras demoram, mas sempre acham. Algumas só conseguem entrar em desespero. Eu arrisco dizer que as que entram em pânico são as que acham que é isso aqui que é real, o dia a dia. Que no final das contas, o que vale é tentar morrer sem deixar nada pendente. Mas eu tenho uma notícia ruim neste sentido: mesmo que você tenha 25 anos e só vá morrer depois dos 100, ainda assim você deixará coisas pendentes. Isso porque a vida é assim. Ela é o recomeço diário, a solução. Estamos aqui para nos transformarmos a cada dia, perceber as nossas capacidades e, ter medo disso não ajuda em nada. O medo, o desespero, a ansiedade só nos paralisam e nos fazem sentir como se estivéssemos, de novo, atrasados para alguma coisa que não nos lembramos. Lembra do coelho da Alice no País das Maravilhas, que só conseguia repetir e repetir que Alice estava atrasada? Este coelho mora dentro da cabeça de cada um de nós, e ao invés de nos deliciarmos com nosso café da manhã, nos sentamos lá e ficamos pensando em problemas, devorando 20 pãezinhos (quando não é só o café preto mesmo) sem sentirmos mais nada, completamente anestesiados perante a vida.

Perdendo o café, o filho crescendo, a paisagem da janela, a entrada do outono. O equinócio que aconteceu de ontem para hoje, aliás. Vamos aproveitar esta energia e mudar a nossa visão do que é real? Problemas, contas para pagar, tudo isso é o nosso maia, a nossa ilusão. É o nosso jogo do Big Brother que estamos jogando e só. O que nós somos como almas, como espíritos é o que vale. O resto é só o resto.

E nessa energia de paz e tranquilidade é que poderemos ver as tais quatro soluções de nossos chamados problemas. E poder seguir em frente, deixando um monte de pendências deliciosas para resolver, ah, depois!

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.