por Andrea Pavlovitsch

Escorregando na poça de lama

Quando eu era criança, devia ter uns oito anos, eu fui com uma amiguinha da praia, pegar madeiras para construir a sede de um clubinho. Éramos todas entusiastas de uma ideia muito boa de fazer um enorme buraco na rua de terra (areia) ao lado da minha casa de praia e cobrir com madeiras, para fazer a tal sede do clubinho só de meninas. Claro que um menino não poderia entrar (e um menino também não teria pensado nessa ideia estapafúrdia), de jeito nenhum, o que deixou todos loucos da vida. Saímos em nossa empreitada e eu e a tal amiga entramos numa construção abandonada, a fim de achar algumas madeiras. Havia chovido muito e eu vi, em cima de um monte de areia, um punhado bom de madeiras. Subi mas, quando cheguei lá em cima (e, naquela época, era lá em cima mesmo), comecei a afundar. Como havia chovido muito, a areia estava mole e eu não conseguia sair de lá. Tentei, tentei, tentei e quando já havia perdido as esperanças Vinícius, o filho da vizinha com um ano a mais do que eu, chegou. Ele me puxou com seus braços fortes e me tirou do buraco. Lembro-me até hoje do olhar de cuidado que ele me lançou e fui grata pelo resto dos meus dias por ele ter feito aquilo. Mais tarde, dois anos depois, ele foi o responsável por achar minha irmãzinha perdida, na época com um ano e meio de idade. Ele era o meu herói e, claro que eu era completamente apaixonada por ele!

"Entrar no desespero só aumenta a nossa impotência...

Hoje me lembrei dessa história quando comecei a me sentir escorregando na lama. Pelo terceiro mês seguido eu tive o mesmo problema com o cartão de crédito. Eles erram, mandam faturas que não existem e não mandam as que existem e estão tão perdidos como cegos num tiroteio. Eu ligo, eles pedem desculpas e dizem que já foi tudo arrumado e, no mês seguinte, acontece a mesma coisa.

Todo mundo já deve ter sentido isso. Sentido como se estivesse escorregando em cima de um monte de areia. Quando eu, aos oito anos, sentia que meus pés não tinham apoio e eles escorregavam por mais que eu tentasse sair do buraco, me sentia impotente. E hoje, quando descobri novamente o mesmo erro do cartão, me senti igualzinha.

Por que será que alguns problemas simplesmente entram numa roda cíclica de acontecimentos? Por que será que há três meses eu venho passando pela mesma situação? Tudo bem que a empresa de cartão de crédito é uma porcaria e tudo mais, mas porque eles cismaram em arrumar problemas justo comigo? E por que algumas pessoas são assaltadas toda hora e outras não? E por que algumas pessoas só arrumam namorados alcoólatras e outras não? Eu pergunto e eu respondo: energia.

Quando percebi o problema do cartão entrei em pânico. Comecei a pensar nos inúmeros problemas que aquilo poderia me causar, que eu nunca mais seria a mesma e tal, tal, tal. Sei que tenho problemas pessoais com números e com a responsabilidade da parte financeira, coisa que eu trabalho muito nas minhas sessões de meditação. E mesmo mantendo tudo em ordem, essas coisas estão acontecendo.

É incrível como o medo de alguma coisa faz com que aquilo seja atraído para nós. Conheço pessoas que morrem de medo de assalto, mas são realmente assaltadas a toda hora. E eu, com meu pânico de faltar dinheiro, tenho problemas justo com isso. Como é forte a parte do Universo que quer nos mostrar as lições que ainda devemos aprender. É incrível!

Acredito que quando eu parar com a paranoia financeira, quando eu parar de acreditar que tenho que agradar todo mundo e ter o suficiente para me sustentar senão eu serei uma grande porcaria, eu vou parar de ter esse tipo de problema. A situação é que o meu encanar só está atraindo mais problemas, até mesmo onde eles nem existem. Então, qual é a solução para aqueles momentos em que nós sentimos que estamos paradas numa poça, chafurdando na lama, sem conseguir sair da situação?

Primeiro, parar de se sentir impotente e se bancar. Pensar ótimo, se eu for mesmo assaltado eu vou ficar calma, vou dar o dinheiro para o ladrão e nada de mal vai me acontecer. Ou ótimo, se eu tiver problemas financeiros, eu vou trabalhar e me recuperar e eu não devo nada para ninguém. Quando nos colocamos do nosso lado a nossa impotência com relação à situação acaba. Sentimo-nos impotentes quando achamos, acreditamos que a solução está nas mãos de outras pessoas, que não nós mesmos. E isso, com certeza, não é verdadeiro. 

Segundo, não esperar um salvador para a situação. Sim, eu tive o Vinícius naquele monte de areia, mas ele não está mais aqui (ou está do meu lado de dentro). Então, o que preciso fazer é ajeitar um bom pedaço de madeira e ir me arrastando para fora do meu buraco, mesmo que isso me deixe exausta de cansada. Sempre dá para sair e, tenho certeza, eu não morreria afogada na areia se ele não tivesse chegado. Sei disso agora, agora que minha consciência se deu conta de que eu sempre espero por um salvador para os meus problemas.

Terceiro, entender o padrão que atrai o problema para você. Se você só tem problemas de relacionamento, ou só de dinheiro ou qualquer outra coisa entenda o quanto aquilo é importante na sua vida e porque os problemas estão se repetindo tanto. Ás vezes, por medo de uma outra coisa, acabamos minando nossa vida. Por exemplo, por medo de amar verdadeiramente, só atraímos pessoas comprometidas ou que estão saindo para morar no Amazonas, no meio dos índios. Entende? É um padrão que acaba por se repetir por muitas e muitas vezes e, assim como os sonhos recorrentes, é importantíssimo que prestemos atenção a essas situações.

E, por último, não achar que é o fim do mundo. Entrar no desespero só aumenta a nossa impotência e, aí sim, que não conseguiremos fazer nada mesmo com a situação. O melhor é fazer a sua parte e entregar o resto para o Universo. Eu, por exemplo, sei que sairei ilesa da situação do cartão de crédito, mas não quero mais que isso se repita. Para isso eu vou me trabalhar, energeticamente, e, claro, ir atrás dos meus direitos de consumidora. Tenho certeza de que, depois disso, não terá mais telemarketing e nem montinho de areia que me segure! E você, quais são as poças da sua vida? Hein?

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.