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por Andrea Pavlovitsch

Entendendo os ataques gratuitos

Eu sempre fui meio ingênua. E isso me custou muita coisa, por muitas vezes. Eu sempre acreditava nos absurdos que as pessoas me diziam sobre mim, por exemplo, e não entendia que aquilo não era real, era só um ataque. Como quando uma colega de faculdade, “contou para me proteger”, que meu bumbum avantajado era motivo de chacota dos caras (o que ela não sabia, era que um deles me chamou para sair e eu recusei). Chorei por dias, não queria mais voltar para as aulas e não me lembro de trocar mais do que duas palavras com eles depois daquilo. Sinceramente, ela “precisava” me contar tanto assim? E ainda fez isso dando risada.

É interessante quando as pessoas querem “te ajudar” e “abrir os seus olhos”. Algumas vezes, poucas, senti uma sinceridade. Às vezes a pessoa quer realmente ajudar, faz uma crítica construtiva e isso resolve as coisas. Isso é bem legal. Mas ataques são coisas diferentes. A diferença do ataque é que ele não tem um propósito, mas mais do que isso, ele costuma ser invasivo e desnecessário. Como o comentário da colega acima. Quando dizemos para uma amiga, deprimida, que ela engordou, não estamos tentando ajudar. Se ela já não está legal, provavelmente esse é o motivo de um descuido com o corpo e não é que ela não se olha no espelho.

Estes dias eu falei uma coisa para um amigo que todo mundo fala sobre mim, que pareço mais nova do que eu sou. Eu acho isso de mim e muitas pessoas concordam. Até exageram no desconto da idade (sim, eu também sei reconhecer um puxa-saco ou alguém sem noção). Mas é verdade. Aí a pessoa me ouviu falar isso e repetiu “Nossa, quanta modéstia”. Modéstia? Sério? Ainda tem gente que espera que eu responda com um “Que é isso, bobagem?” depois de todo trabalho de autoestima pelo qual eu submeti a mim mesma? Ah, me poupe.

Uma coisa que precisamos ficar atentos é que toda crítica é uma confissão. Às vezes ela vem escondida, mas ela sempre nos revela alguma coisa sobre a pessoa. Tem uma frase famosa de Freud que ilustra bem isso: “Quando Pedro me fala sobre Paulo, me diz mais sobre Pedro do que sobre Paulo”. Pura realidade.

O que quero dizer é que toda crítica tem uma intenção. E essa intenção sempre envolve um desejo mascarado. Uma mulher que critica muito a outra, possivelmente sente muita inveja e acha que jamais será como a outra. Ela encontra um “ponto fraco” para focar, algo que ela pensa que incomodará o outro e manda ver. E como somos ingênuos, acabamos caindo.

Tem uma cena do filme “O Sorriso de Monalisa” que é bem bacana. Várias moças moram juntas nos dormitórios da faculdade. Uma delas chega de manhã da casa do amante. Uma outra, casada recentemente, começa a atacá-la. A chama de prostituta para baixo. A colega, mesmo sob a saraivada de esculachos, ouve e não diz nada. Quando ela chegou ao auge, falou a coisa mais baixa possível, a amiga atacada parte para cima dela e dá um abraço na amiga. A agressiva começa a chorar e acaba confessando que não está feliz com seu marido e que ele não a quer como mulher.

Ou seja, toda pessoa que está atacando tem dentro de si um animal ferido. Você, naquele momento, tem alguma coisa que ela deseja e não pode ter. Um emprego, família, trabalho. Pode até esboçar desejo sexual que precisa ser reprimido (por muitos motivos) e isso é muito comum de acontecer.

Então, se sentir qualquer mal-estar com o comentário de qualquer pessoa, pare para analisar. Aquilo que parece uma coisa, pode ser bem outra. Veja qual foi a verdadeira intenção da pessoa. Será que ela só queria te ferir? Por que ela faria isso? Será que você sente os olhares desejosos daquele homem que não para de repetir que você é a mulher mais feia que ele já viu? Será mesmo que sua “amiga” é tão amiga assim? Será que, mesmo sendo amiga, ela não está passando por dificuldade e só precise de um abraço? Não dá para ficar ignorando isso. Mesmo que você não responda para a pessoa, que isso não valha a pena ou te coloque sob algum tipo de perigo, mesmo assim pare e analise. Isso vai te poupar muitos dias de choro, posso garantir. 

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.