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por Andrea Pavlovitsch

A expectativa dos nossos pais

Outro dia recebi uma adolescente no meu consultório. Ela tinha 17 anos e estava escolhendo a faculdade. O pai, médico, queria que ela fizesse medicina. A mãe, produtora cultural, dizia que a menina tinha jeito para a moda. Ela estava completamente perdida, sem saber o que fazer.

Isso é bastante comum e um exemplo fácil do quanto os pais podem criar expectativas para os filhos. Mas o buraco, como sempre, é mais embaixo. Muitas vezes, enchemos as crianças de expectativas sem nem ao menos nos darmos conta disso. Vi um pai falando dos filhos na TV outro dia. Ele disse: “Eu não espero nada deles, só que sejam boas pessoas”. Sim, meu amigo, eu sinto informar, mas isso já é uma expectativa. E a pergunta é: o que é uma “pessoa boa”?

O problema desse tipo de expectativa é que as crianças sentem e, muitas vezes, tentam atender aos pedidos inconscientes dos pais. Uma criança pode ter uma inteligência mediana, mas o pai cria um pequeno gênio na cabeça dele. Quando o menino chegar com uma nota 9 em casa, vai ser um Deus nos acuda.

Eu, infelizmente, escuto as conversas de uma vizinha do meu prédio – sabe como são essas paredes muito finas. E ela um dia estava reclamando que a filha, de cinco anos, não gostou de um Papai Noel que ela deve ter trazido para ela, de brinquedo. A menina dizia que estava com medo e a mãe não se conformava com isso. “Você tem cinco anos, não pode ter medo do Papai Noel, todas as outras crianças gostam”.

A menina não gostava, mas precisava gritar de medo para a mãe perceber isso. E mesmo assim, ela não aceitava. As expectativas estão nas pequenas coisas. Queremos, como adultos, nos vermos nas crianças ou nos jovens, mas somos todas pessoas diferentes e, se você não teve a chance, não tire isso de uma criança.

Isso vale para o conceito de sucesso, por exemplo. Para um pai, o filho só terá sucesso quando ganhar seu primeiro milhão ou se for parar na televisão, horário nobre. Possivelmente este pai, por mais sucesso que tenha tido na vida, não consegue ver que as conquistas das pessoas são muito diferentes.

Às vezes, conseguir se livrar de uma depressão vale por um doutorado e morar numa casinha nas montanhas, comendo o que se planta, é a noção de sucesso dele, apesar de não ser a sua.

Então, cuidado. Se você quer algo para a sua vida, tenha isso na sua vida. Eduque, sim. Ensine o que pode fazer a pessoa sofrer, ensine a ter disciplina e depois simplesmente entregue para Deus. Tenha o equilíbrio, como diria o psicólogo Winnicot, da “mãe suficientemente boa”, ou seja, nem aquela santa e nem aquela megera. E vamos parar de esperar dos nossos filhos – ou sobrinhos, irmãos, e até mesmo dos nossos pais – que sejam como nós queremos que eles sejam. Se cada um cuidar de si mesmo, isso já é um sucesso.

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.