por Andrea Pavlovitsch

Autorreconhecimento

Minha cliente chegou cabisbaixa, estranho porque a vida dela estava indo muito bem e ela estava prestes a ter “alta”. Perguntei o que aconteceu e ela disse que ficou chateada com uma coisa.

Era aniversário do marido e ela escreveu um cartão bem bonito. Lindas palavras, comprou um que gostasse, pesquisou no fundo do seu coração o que aquela relação representava para ela e enviou. Mal conseguia escrever porque chorava só de pensar na reação dele recebendo um presente tão especial. Ele recebeu, leu e respondeu com um sorriso e um “legal”. 

Ela ficou péssima. Como assim, ele respondeu legal? Palavras como “legal” e “beleza” não deveriam ser permitidas em relações pessoais. Só no profissional, e olhe lá. Tem alguma coisa mais fria que isso?

Como tudo é chance e oportunidade de crescimento, fomos pesquisar. Primeira coisa, e mais óbvia, a frustração foi causada por uma expectativa alta. Ela achou que ele choraria com as palavras dela, mas isso era só uma fantasia. A partir do momento que você dá alguma coisa para alguém (desde um presente até o seu coração) a pessoa pode fazer o que bem quiser com aquilo. Inclusive, nada. Mas essa era a parte mais fácil do trabalho (terapeuta também sofre...rs). O problema estava mais embaixo.

Comecei a perguntar o que ela sentiu quando o marido fez isso. Ela pensou um pouco e disse que não ficou magoada na hora: “Na verdade, acho que achei normal, como se todas as vezes que eu desse algo a alguém isso fosse banal”. Investigamos mais um pouco e ela percebeu que cresceu assim. Sempre que fazia algo bacana, como tirar uma boa nota na escola ou ter sua peça de teatro escolhida pela professora, não havia reconhecimento. Muitas vezes ela ouviu um “legal”, quando chegou em casa com uma notícia sensacional. As notas altas, que ela sempre tirou, nem tinham mais importância. Não tinha presente especial por elas, nem mesmo um sorvete. Ela cresceu achando que não fazia mais que a obrigação.

Assim, tudo o que ela faz de legal para si mesma hoje, é assim “legal”. Outro dia contou que vai escrever um livro fantástico com a empolgação de quem diz “passa os brócolis” no jantar. Pesquisando, lembrou que, quando passou num concorrido vestibular ainda jovem, nem o jornal comprou: “Foi a minha prima que me ligou dizendo que eu passei. E ela ficou espantada porque eu nem comemorei no telefone”.

Como ela, muitos de nós passaram situações assim. Não tiveram o reconhecimento das pessoas importantes quando mais precisavam. O problema não é não ter tido isso, mas a relação que você acaba criando com tudo de bom que faz para você mesmo.

Crescemos ouvindo que não podemos ser egoístas e nem ficar “se achando”. Viramos todos muito “humildes”, low profile. Não pode comemorar porque senão você é metido. E quando você acaba contando coisas importantes, poucos dão a importância que realmente tem.

A parte boa é que sim, podemos mudar isso. O que acontece é que a sua energia é de “não reconhecimento”. Se você não consegue reconhecer a si mesmo, como quer que os outros reconheçam? A gente acaba entrando numa espiral de fazer cada vez mais e mais para o outro, esperando que o outro reconheça aquilo que não fazemos. E aí, é uma luta sem fim. E sem final feliz.

Mas como resolver a equação: começando, você mesmo, a se parabenizar por tudo o que faz. Você vai se sentir um maluco no começo, mas com a prática fica tudo mais fácil. Não faltou no treino da academia depois do carnaval? Parabéns! Conseguiu resolver aquele problema cabeludo com documentação? Você é demais!! Baixou 4 números de calça jeans? Você é o cara!! Não, você não vai ficar maluco e nem afastar todos a seu redor, porque isso você faz para você mesmo. Não precisa repetir isso na frente de ninguém (lembre-se, não é o reconhecimento deles que você quer, é o seu próprio). 

Outra técnica é fazer uma caixa de peixinhos. Sabe quando a foca faz um truque e o treinador dá para ela um peixinho? Mais ou menos isso. Reserve um horário do seu dia para se dar os parabéns. Sente-se, pegue post its coloridos e parabenize-se. Parabéns por não faltar no treino. Parabéns por ouvir sua mãe ao telefone. Parabéns pelo trabalho bem feito. Acredite, em poucos dias você vai se sentir um menininho orgulhoso e preenchido. Ou uma menina correta e tranquila. O importante é fazer essa criancinha, que ficou sem peixinhos, começar a ganhá-los. E parabéns por ler este texto. E parabéns por ser você mesmo!! Você é sempre maravilhoso!! 

Andrea Pavlovitsch

+ artigos

Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.