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por Hellen Reis Mourao

As bruxas na Mitologia Grega - Parte 3

Circe


Famosa feiticeira, considerada uma deusa da noite. Tinha o conhecimento de poções mágicas e venenos poderosos. 

Tida como filha de Hécate e Hélios em alguns mitos, sabia transformar os homens em animais. Deusa da Lua Nova, da feitiçaria, encantamentos, amor físico, maldições, sonhos precognitivos, bruxaria e caldeirões. Vivia em um palácio encantado, cercado por lobos e leões, e seres humanos enfeitiçados. Seu poder era tão grande que fazia florestas se moverem e o dia virar noite.

Circe está associada aos falcões, sendo que o grito do falcão é "circ-circ", considerado a canção mágica de Circe. Os pássaros, assim como Circe, têm a capacidade de viajar livremente entre os reinos do céu e da terra, sendo possuidores dos segredos mais ocultos e portadores do espírito e da alma. Escritores gregos antigos a citavam como "Circe das Madeixas Trançadas", pois podia manipular as forças da criação e destruição através de nós e tranças em seus cabelos. Como o círculo, ela era também a tecelã dos destinos.

O herói Ulisses da Odisséia de Homero e sua tripulação desesperada desembarcam na praia da ilha de Eana, onde vivia Circe, filha do Sol. Ao desembarcar, Ulisses subiu um morro e, olhando em torno, não viu sinais de habitação, a não ser um ponto no centro da ilha, onde avistou um palácio rodeado de árvores.

Ulisses enviou à terra 23 homens, para verificar com que hospitalidade poderiam contar. Ao se aproximarem do palácio, os gregos viram-se rodeados de leões, tigres e lobos, não ferozes, pois eram homens transformados em feras pelos encantamentos de Circe.

Do lado de dentro do palácio vinham sons de uma música suave e de uma bela voz de mulher que cantava. A deusa apareceu e convidou os recém-chegados a entrar, o que fizeram de boa vontade, exceto Euríloco, que desconfiou do perigo. A deusa fez seus convidados se assentarem e serviu-lhes vinho e iguarias. Quando haviam se divertido à farta, tocou-os com uma varinha de condão e eles se transformaram imediatamente em porcos, embora conservando a inteligência de homens.

Ulisses, então, resolveu ir ele próprio libertar os companheiros. Enquanto se encaminhava para o palácio encontrou o jovem Hermes, que conhecia suas aventuras e lhe contou dos perigos de Circe. Não sendo capaz de convencer Ulisses, Hermes deu-lhe o broto de uma planta chamada Moli, dotada do poder de resistir às bruxarias e ensinou-lhe o que deveria fazer.

Quando Ulisses chegou ao palácio foi recebido por Circe com muita cortesia, que lhe serviu vinho e comida. Mas quando ela o tocou com a varinha para transformá-lo em porco, Ulisses tirou sua espada e investiu furioso contra a deusa, que implorou clemência. Ulisses exigiu que ela libertasse seus companheiros e ela retirou o encantamento. Os homens readquiriram suas formas e Circe prometeu um banquete para toda tripulação.

Tratados magnificamente durante vários dias, Ulisses se esqueceu de retornar à Ítaca, e se resignou àquela vida inglória de ócio e prazer. Por alguns anos, Ulisses permaneceu com Circe aprendendo com ela as magias do encantamento. Por fim seus companheiros apelaram para seus sentimentos mais nobres, e ele resolveu partir.

Circe recomendou aos marinheiros tapar os ouvidos com cera para passar sãos e salvos pela costa da Ilha das Sereias. A Ulisses, Circe aconselhou a amarrar a si mesmo no mastro dando instruções a seus homens para não libertá-lo, fosse o que fosse que ele dissesse ou fizesse, até terem passado pela Ilha das Sereias.

Circe não é tão destrutiva quanto Medéia. Ela é a bruxa, que quando sobrepujada pelo herói se torna uma grande aliada e fonte de sabedoria. 

 

 

Sobre a arte de transformar o humano em animal é importante compreender que para um ser humano, ser transformado em animal significa estar fora de sua própria esfera instintiva, alienado dela. É ser parcialmente dominado por um instinto que não é humano, mas unilateral e que perturba a consciência humana e tira o indivíduo da sua real missão.

Circe é aquela que mantém o homem preso ao seu instinto mais animal e inferior. Como porcos os homens de Ulisses estavam dominados pela gula, pela voracidade e pela luxúria exacerbada.

Com o auxilio de Hermes – a astúcia e inteligência – Ulisses come uma planta e assim consegue se libertar da feitiçaria. A planta por sua beleza etérea é o símbolo da renovação espiritual. 

Circe então é a voz do desejo mais animal que há em nós, mas que se faz necessário conhecer para nos auxiliar em nossa trajetória. É essa voz que canta que nos auxilia a resistir às paixão e aos desejos destrutivos e o canto ilusório da sereia como desejo de poder.

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Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.