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por Ana Paula Malagueta

O carnaval interior

Carnaval no Brasil virou sinônimo de muitas coisas, sendo que a mais marcante é que o ano só começa após o Carnaval. O mais engraçado é que o Carnaval não é de fato uma invenção brasileira. Remonta aos tempos antigos, desde Mesopotâmia, onde por exemplo, na Babilônia, acontecia as Saceias, onde um prisioneiro assumia por alguns dias o papel do rei e depois era morto. Já, junto ao Equinócio da Primavera, na Mesopotâmia, o rei perdia seu poder e era humilhado na frente da estátua do deus Marduk, e depois voltava ao trono. Assim, como na Grécia e Roma haviam as Saturnálias (relacionada a Saturno) e as Lupercálias, em dezembro e fevereiro, onde os reis viravam escravos e escravos viravam reis. O que há em comum em todas essas celebrações: a questão da inversão dos papéis sociais. Ou seja, por um tempo determinado eu poderia ser outra pessoa

E não é isso que de fato acontece? Por alguns dias, torna-se permitido ou quase que imperativo que você seja outra pessoa. Assuma uma nova personagem ou várias. A relação com tudo é permitido durante o Carnaval pode remontar aos festivais e celebrações de Dionísio e Baco, com seus vinhos, orgias e danças estáticas.
 
Personagens já assumimos no cotidiano: mãe/pai, esposa/esposo, filha/filho, empresária/empresário, avó/avô e a lista segue se desenrolando. Mas, nesses poucos dias eu posso ser outra, eu posso ser outro, eu posso ser tudo que eu quiser e fazer tudo que eu quiser. Sem preocupar-me com as consequências. Será mesmo?
 
Por que necessitamos disso? Por que precisamos de uns dias para escapar da nossa realidade? Por que os excessos cometidos no carnaval tornam-se na verdade uma busca desenfreada por tudo aquilo que não temos e não somos?
 
Isso, faz-me lembrar dos bailes de Veneza, do carnaval de máscaras. As fantasias que assumimos e os rostos que ocultamos. Penso: O que estamos escondendo e ocultando por detrás de nossas escolhas de fantasias? Ou, igualmente: o que estou revelando por trás dessa máscara e dessa fantasia?

Por alguns dias, torna-se permitido ou quase que imperativo que você seja outra pessoa

O carnaval é um período onde tudo pode. Onde aquelas sombras individuais e coletivas, literalmente, saem para dançar e pela única vez ao ano são “aceitas” e “toleradas”, afinal, é só “brincadeira” de carnaval.  
 
Mas, quem já não ouviu que toda brincadeira há um fundo de verdade? Sim, há, inevitavelmente. Assim, como há muita verdade nas suas escolhas e excessos. Na suas atitudes e nas suas revelações.
 
O carnaval é uma grande válvula de escape, assim com em outros períodos de festas, como o Ano Novo. É um período onde tudo que eu contenho em mim, onde tudo que eu escondo, onde tudo que não é permitido e aceito, onde aquilo que vai contras as regras e as morais, precisa sair. Porque o ser humano já estava a ponto de explodir. O fato de reprimirmos parte de nós, é que faz eclodir celebrações como o carnaval. Ninguém aguenta tanto tempo, suprimir tantas partes de si. Por isso a explosão da sexualidade, do corpo que se mostra, dos excessos, das fantasias (em todos os âmbitos), a loucura, o torpor e as cores.
 
A verdade é que acabamos vivendo em um mundo que nos afasta da verdadeira liberdade. A liberdade de sermos quem somos, sem máscaras e sem fantasias. Apenas nós. Pura e simplesmente. Perde-se a alegria, a leveza, a espontaneidade e o colorido. Quanto mais nos distanciamos da nossa própria expressão essencial, da nossa alma, distanciamo-nos do calor de viver.
 
Por isso, gosto de relacionar a simbologia do carnaval com a busca da alma pela sua integração. A verdadeira celebração é aquela que une céu e terra, em um verdadeiro Alma-Val. Sim, Almaval. Onde nossos corpos podem entrar em comunhão com a Terra e com os Céus. Sem negar, mas sim integrar. E, o Almaval pode ser diário e constante.

1. Observe os papéis que você representa. Onde está você neles? 

2. Observe aquilo que te incomoda nos outros. Se você percebeu e isso gerou incômodo, esse conteúdo é seu. É o que chamamos de projeção. Então, o que fazer com essa parte de mim que não gosto? Aprenda a acolher-se, luz e sombra. 

3. Observe aquilo que te inspira nos outros. Se você percebeu um dom é porque você tem isso em si. Essas são as pérolas das nossas sombras. Então, por que não reconhecê-la como parte de si? Aprenda a expressar seu melhor e o lado luminoso. Deixe as luzes da vida te iluminar. 

4. Dê mais risadas e não leve a vida tão a sério. Isso é algo bem presente no carnaval. A leveza da vida. Rir dos problemas abrem espaço e trazem clareza para encontrar as soluções escondidas. Todo problema já traz em si uma solução como sua contraparte.


5. Você pode ser quem bem entender. Não permita que o que os outros ou a sociedade acha, mate a luz que a em você. Todos os dias você pode acordar e ser quem desejar ser. Basta querer. Você é o agente de mudança e você é a própria mudança. Nada te limita, a não ser você mesma.

6. Saia da mesmice. Se o carnaval nos ensina algo é sair da rotina. Fazer algo inesperado. Jogar-se na vida. Experimentar. Claro que podemos fazer isso com discernimento e responsabilidade, mas ousar é descobrir novas facetas de si mesma. Sambe um pouco, no melhor dos sentidos. Sacuda a poeira!

7. Traga um pouco de alegoria e samba enredo para sua vida. O tédio e a rotina podem nos aprisionar na incapacidade de ver além. Ampliar seus contatos, chamar outras pessoas para seguir a vida com você e sim, cantar ou como digo no yoga: mantrar (entoar mantras) podem mudar nossas vidas. Sua vida pode ser um lindo desfile de escola de samba. Você gosta do que vê? Imagine cada carro representando um evento marcante na sua vida. Reflita: o que eu posso mudar agora? O desfile apenas começou...

8. Serpentina, purpurina e o que mais? Do que eu preciso em minha vida para celebrar mais? Agradecer mais? Divertir-me mais? Você não precisa gostar de carnaval para se divertir. Encontre a sua forma de diariamente ou semanalmente extravasar. Não aprisione-se. A vida é para ser vivida.

9. Assumir nosso corpo e nossa sexualidade. É muito importante não separar a experiência da Terra (corpo) com a experiência do espírito (céu). É preciso integrar. Por isso, a busca é diária pela conexão com nosso corpo, seus ciclos interiores e a forma de viver saudavelmente sua expressão.

10. A verdadeira festa acontece dentro de nós. O carnaval mais eterno é aquele que se regozija em alegria em nosso interior. É a alegria de ser honesto, verdadeiro, simples e disciplinado. Qualidades estas que parecem contradizer a proposta do carnaval. Porém, pense comigo: se sou livre não preciso de uma “desculpa” para sê-lo. Eu quero que você seja de verdade livre. Por isso, comece uma revolução em sua vida e esteja em constante celebração interior...um carnaval que nunca termina.

11. Como? Bem, o primeiro passo é o autoconhecimento. O segundo passo é a disciplina. Preciso o tempo todo cantar e chamar por essa Força Maior/Consciência Suprema vir e habitar em mim. Esta é a mais perfeita fantasia. Esta é a mais perfeita máscara, porque revela quem nós verdadeiramente somos: parte do Divino.

Pronta para sambar e desfilar com sua alma na avenida da vida?

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Ana Paula Malagueta

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Professora de Yoga e Terapeuta Holística especializada em Mulheres, Gestantes e Pós-parto. Doula, Registered Bach Practitioner, Aromaterapeuta e Reikiana. Condutora do Devi Shala Círculo de Mulheres. Editora de conteúdo e texto do Yogaway.