por Paulo Bregantin

Efeitos da depressão no corpo, nos pensamentos e nos sentimentos

A depressão afeta o ser humano de forma complexa e generalizada, não existe uma forma específica para se perceber como ela atua no organismo e na vida social, porém podemos perceber que alguns efeitos são comuns quando a pessoa está sofrendo desse mal. 

Os efeitos sobre as ações corporais, mentais e sentimentais podem ser observados se prestarmos a atenção em cada pessoa que está vivendo o processo de depressão, vamos descrever alguns desses efeitos ou ações, claro, não são somente esses efeitos, existem outros, pois a depressão é uma doença, além de perigosa e silenciosa, é individualizada, ou seja, cada pessoa vai desenvolver uma forma depressiva. 

Vamos dividir os efeitos da depressão em: efeitos no corpo (físico), efeitos nos pensamentos (mente) e efeitos nos sentimentos (alma). 

No corpo (físico)

Sensações de alteração do padrão de sono, não uma insônia momentânea e/ou uma preocupação ou um pesadelo noturno, a sensação é de “peso” e de inquietação, com pensamentos que não cessam, é como se a cabeça estivesse ligada o tempo todo, não existe descanso. 

Diminuição ou aumento do apetite, esse distúrbio de alimentação acontece de forma silenciosa, ou seja, começa não querendo mais comer na hora correta e depois passa por não desejar mais as comidas que mais gosta, a comida fica sem sabor, sem alegria, o prato fica “cinza”, com a sensação de que a comida não vai passar pela garganta. E, quando come, logo em seguida vem a sensação de vomito, azia, desconforto estomacal e até um pouco de culpa por não ter comido com vontade. 

Ganhar ou perder peso sem fazer regime também é um efeito sobre o corpo, pois comer de forma desregulada vai gerar essa ação no corpo, pois o sedentarismo acompanha esse efeito depressivo de ganhar ou perder peso. 

Mudanças nas atividades corriqueiras, tudo começa a ter um “peso”, uma canseira sem igual, por exemplo: tomar banho se torna algo insuportável, escovar os dentes também, fazer qualquer tipo de atividade começa a ser uma pressão e, às vezes, até uma opressão, mesmo que ninguém esteja pedindo. Os trabalhos de casa tornam-se assustadoramente ruins.

É comum durante o dia ter uma raiva não específica com algo ou alguém e essa raiva dominar a vida naquele momento. Por não ter uma causa evidente, o desejo e ação é de se afastar e ficar cada vez mais em silêncio e, com isso, vai gerar a angústia. Essa raiva pode acontecer de manhã, de tarde ou à noite e tende a se repetir em todos os dias. Normalmente é a hora de maior náusea e dor de cabeça intensa.  

Perda da energia de fazer as coisas e viver os momentos oferecidos pela vida, tudo vai se tornado muito “chato” e cansativo para executar. Sem vontade de dirigir o carro ou de ir ao banco, à feira, ao supermercado, etc. A prática de esportes some totalmente.  

Diminuição drástica de interesse por sexo, a sensação de que dará muito trabalho e o pensamento mais no “depois” do que o antes ou durante. Essa sensação de pensar no depois diminui o apetite sexual e os desejos libidinais são canalizados para outras ações, como: gritar no trânsito, brigar com as pessoas sem motivo, questionar as pessoas com assuntos irrelevantes, etc. 

Os efeitos causados nos sentimentos (Alma)

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Uma sensação intensa de tristeza constante e, sem causa aparente, irritabilidade com quem está feliz, entende que a felicidade não existe, somente a tristeza. A sensação de ficar deprimido e ressentido com si mesmo por não poder reagir, angústia generalizada envolvendo um misto de sentimentos: raiva, ódio, ingratidão, insegurança, angústia.

Um aumento exacerbado de preocupação, preocupar-se com aquilo que ainda não aconteceu, pensamento fixo que será mandado embora, que será, foi ou está sendo traído (no trabalho e no relacionamento), medo de perder as amizades, insegurança total para o futuro, sensação de que nada vai acontecer e se for acontecer será para o mal. A certeza que nada dará certo. 

A ansiedade é um efeito muito persistente nos quadros de depressão, pois é um sentimento angustiante de que a vida não haverá como agir, pois as soluções estão sempre encobertas e a incapacidade de solucionar algo no futuro é real e certa. 

A sensação de vontade de NÃO viver é intensa, quando menos se espera começa os questionamentos a Deus sobre o porquê deve continuar vivo(a), essa fala está na mente o tempo todo, ou fala que não fará falta para ninguém, então seria melhor morrer. Não ser importante para as pessoas é uma sensação real e sinceramente triste para um depressivo.  

A capacidade de amar diminui muito, ou seja, não se tem desejo de manter relacionamentos, tudo fica muito chato e cinza, sem vontade de continuar com pessoas que antes gostávamos. Não é uma vontade de mudar de pessoa, mas de não quer mais ninguém.  

O sentimento de prazer se esvai totalmente, esportes não têm mais graça, pescar não tem mais graça, assistir filmes e TV não têm mais graça, conversar não tem mais graça, ir a um barzinho tomar uma não tem mais graça, nada tem mais graça, tudo vai ficando cinza e opaco, inclusive as pessoas. A monotonia torna-se um estilo de vida.  

A indiferença toma lugar na vida e muitas coisas já não são mais importantes como eram, as palavras perdem os sentidos, os gestos passam despercebidos, não se tem vontade de falar, fazer, pensar e discutir, tudo fica indiferente. 

A esperança da vida acaba, não tem mais sentido ter esperança de algo que não vai acontecer, é uma certeza de que nada e ninguém pode ajudar. São as angústias mais profundas, pois a esperança se torna uma tortura, afinal, todos falam para se ter esperança, porém as falas são vazias e doloridas, cada dia é uma chatice angustiante

A inutilidade é a sensação real do ser depressivo, inútil no falar, agir, pensar, refletir, inútil nos pensamentos, inútil na própria vida e na vida dos outros, inútil no trabalho, inútil para a sociedade, inútil para Deus e para tudo e todos.  

Culpabilidade sem causa, ou não associada a algo real ou verdadeiro, uma culpa sem igual de tudo e de todos. A culpa de ser quem é, a culpa de não ser quem é, a culpa de não falar, a culpa de falar, a culpa de ser, a culpa de não ser, a culpa, culpa, culpa, culpa... 

Os efeitos sobre os pensamentos (mente)

O interesse pelas coisas diminui muito, baixa ou nenhuma vontade de estudar, se preparar ou fazer qualquer tipo de coisa. Tudo é muito cansativo, chato, desnecessário e ridículo de fazer. Os pensamentos de desinteresse são reais e verdadeiros para o ser depressivo. 

A concentração se torna algo raro, pois a desconcentração é verdadeira e real, nada para na cabeça, sempre com um milhão de coisas na mente e, na verdade, não tem nada. Se concentrar para ler um livro e assistir um programa, por exemplo, são ações que consomem muita energia e tentar entender o que está sendo falado se torna uma canseira sem igual. 

As decisões vão se acumulando, pois tomá-las se tornou algo quase impossível, por insegurança, medo, tristeza e o não querer decidir nada. Tudo vira uma canseira insuportável. As decisões são terríveis e, por isso, não se toma.  

O otimismo e pessimismo vivem em confronto, pois quando o primeiro chega, logo é abatido pelo segundo, penso em sair e comer algo, mas o pessimismo já grita que não vai dar tempo, o local está fechado, não haverá vaga para estacionar, estará muito cheio, as pessoas de lá são chatas, não aguento mais esse lugar... 

A determinação e a motivação são destruídas dentro do ser depressivo e essa destruição é sentida como verdadeira e real, como se não existisse a determinação e a motivação. A incapacidade de reagir é tão real e verdadeira, que a determinação e motivação são palavras que não são ditas pelo ser depressivo.  

A autoestima fica totalmente abalada e desconfigurada frente à depressão, fica insuportável conviver com si mesmo e com os outros. Tudo é chato e tudo fica cinza.  

Paulo Bregantin

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Mais de 25 anos dedicado ao cuidado de pessoas, sendo Psicanalista Clínico e escritor com várias obras publicadas. Atua nas redes sociais como dono, gerenciando a página Paulo Bregantin e o Grupo Psicanálise Integrativa.

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