por Andrea Pavlovitsch

Vamos matar a vítima!

Acordei ontem com um baita resfriado. Uma gripe, melhor dizendo. Dor de garganta, dor no corpo, uma dor de cabeça que mais parecia um inferno. Eu só queria uma cama, remédios e o colinho da mamãe.

Mas a vida, essa “sacaninha”, não presta muita atenção nessas coisas do coração. Me vi sozinha, já que moro assim. Sem namorado. Minha mãe presa em seus afazeres e uma gata que quer carinho e comida, independentemente do meu estado de saúde.

Confesso que, na noite de ontem, me encostando pelas paredes eu a senti vindo. Uma vítima interna enorme que repetia no meu ouvido, dentro da minha cabeça latejante, frases como “Está vendo? Ninguém quer saber de você. Não tem um infeliz para cuidar de você agora que você está doente. Vai ter que fazer tudo sozinha!”, puxando um coro de choro que ameaçou sair.

Mas eu estou descolada com esse povo, essas criaturas internas que me habitam, mas que só querem o nosso sangue e a nossa energia. Fui firme. Mandei calar a boca, sem gritar muito, e com muito carinho fui cuidando de mim. Limpei o que deu, só o básico mesmo para poupar minhas forças. Troquei a areia da gata e coloquei comida e água frescas. Ajeitei os travesseiros no sofá e troquei os lençóis, já que tinha passado tanto tempo na cama. Tudo assim, devagar e sempre, sentindo o corpo, a dor e o cansaço.

A “eficiente” queria passar um aspirador, lavar a roupa, ir ao supermercado. Calma, não é dia disso. Vamos ver os remédios que temos. Achei um Benegrip ainda na validade. Que bom. Paracetamol, antitérmico e descongestionante. Perfeito. Fui para a cozinha e no meu último momento de forças fiz uma canja. Bem simples, com o que tinha na geladeira e no armário. Ficou uma delícia.

Depois me sentei no sofá afofado com uma tigela fumegante de canja. O controle remoto e mais uma garrafinha de água do lado. Coloquei “Chewing Gun” na Netflix, já que preciso de comédia e não mais drama, e me aconcheguei nas cobertas. Descansando e cuidando de mim com muito, muito carinho.

A vida é dura. E ela não está nem aí para os seus planos. Quando eu falo de “estar lá para você”, é disso que eu estou falando. Eu estive aqui, para mim. Na saúde ou na doença. Eu cuidei de mim. Claro que, se visse necessidade, poderia ir de Uber até um hospital próximo. Poderia pedir uma carona para um amigo ou uma canja em casa, assim como os remédios da farmácia. Sempre tem uma solução, basta que a gente saia da posição de vítima e cuide do nosso bem mais importante: a gente mesmo.

P.S.: estou bem melhor da gripe, obrigada.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.