por Andrea Pavlovitsch

Você é o ator. Você é a plateia

“É péssimo você se obrigar a ser igual a todo mundo e péssimo se obrigar a ser diferente.” Constanza Pascolato

Faz tempo que eu não escrevo. E fazia tempo que eu não entrava em contato com meus insights diários, coisas que vêm na nossa cabeça e nos mostram crenças e comportamentos contraditórios àquilo que nós acreditamos. Acreditarmos vem do racional, do pensado. Crenças vêm do irracional, da fita gravada que temos na nossa cabeça e que repete os mesmos comportamentos e hábitos, mesmo quando sabemos que aquilo não faz mais parte da gente. Ou achamos que não.

Outro dia mesmo, analisando alguns acontecimentos, eu percebi o quanto ainda precisava do elogio do outro. Quantas coisas eu tinha feito na minha vida simplesmente para mostrar para os outros que eu poderia. Não, não era qualquer outro. Eram os outros significativos como pai, mãe, namorados, irmãos. Como se toda a minha plateia estivesse lá, esperando o meu próximo ato, esperando para aplaudir ou para me vaiar.

Vi isso um dia desses num documentário na TV. Falando sobre filhos ansiosos de pais-helicóptero. Os pais em questão são aqueles que vigiam cada movimento do filho e que chegam a ligar para o reitor da faculdade quando eles têm algum problema. Os filhos, por sua vez, são poços de angústia a ansiedade, sempre preocupados em agradar esses pais que tudo vêem. Não existe um espaço para o si mesmo, existe um grande olho (bem ao estilo Big Brother) que vigia seus passos e está pronto para aplaudir suas expectativas. Ou vaiar seus fracassos.

Mas não existe história sem fracasso. Se você abrir qualquer livro de parábolas verá isso. O fracasso tem sido visto como um monstro que pode te engolir para sempre e não como algo natural que acontece na vida de qualquer pessoa porque é impossível que ela sempre saiba tudo. Não, não sabemos tudo, não vemos tudo, não temos como controlar tudo o tempo todo. Mas aí eu me vi desanimada com a vida e percebi que finalmente, em mais de 30 anos, estava sem plateia. Não porque eles não estivessem lá, mas porque realmente não me importava mais que estivessem. Parece que aquela necessidade não me preenchia mais, não fazia mais sentido. E eu me vi num palco vazio. Decidi, por um tempo, não representar peça alguma. Fiquei lá triste. Como são necessários os períodos de tristeza, solidão, fracasso e arrependimento no ser humano.

No começo, me critiquei por ter permitido que aquilo acontecesse, mas, pensando bem, eu não tinha controle. É muita arrogância pensar que podemos nos manter para sempre num mesmo patamar. A vida tem sempre seus próprios planos, temos algo maior sempre para buscar e determinadas etapas, por mais que tenham sido maravilhosas, precisam dar espaço a novas etapas. E largar o bom é bem pior do que largar o ruim. Pois bem. Por largar o bom entenda largar as crenças de que eu tinha uma plateia e que isso me bastava. Percebi que teria que começar a atuar por atuar. No começo, eu confesso, foi muito difícil. Eu ficava lá de pé tentando manter o equilíbrio, lembrar as falas e todas as vezes que via as cadeiras vazias, meu Deus, como doía. E como vinham as lembranças da plateia cheia.

Um dia, enfim, vi uma menina sentada lá no fundo, quase no escuro. Ela tinha uns 7 ou 8 anos, era alta para sua idade, bem magrinha e de cabelos loiros escuros. Os olhos eram pequenos, apertadinhos quando ela sorria e ela via aquilo que eu fazia com tanta alegria. Ela ria, chorava, se emocionava a cada novo ato. Ficava tão feliz, parecia que ela vivia para me assistir. Desci do palco e cheguei mais perto dela. Ela se parecia muito com alguém que eu conhecia, ela se parecia muito com... com... comigo! E quando perguntei seu nome ela me disse: Eu sou você, não está me reconhecendo?

E desde então, eu tenho atuado só para ela. Tudo o que eu faço, todas as minhas derrotas e as minhas vitórias ela vê. Ela analisa, ela me dá força, ela diz que tudo vai ficar muito bem. Ela é minha companheira de jornada e sim, ela vai estar sempre comigo de verdade. O resto da plateia vai embora, muda, um dia sei que outras pessoas vão se sentar lá e depois vão se levantar e ir embora. Mas ela ficará para sempre. E é para ela, para mim mesma que eu funciono agora.

Encontrar a motivação dentro de si não é fácil. É fácil se motivar com uma promessa de aumento, com o mostrar para o namorado como você está linda e como você cuida de você mesma muito bem. É fácil quando sua mãe te elogia e seu pai liga para o reitor da universidade, mas o preço disso tudo é alto. Porque você terá que preencher as expectativas deles e não as suas. E isso gera uma imensa ansiedade e uma enorme angústia. Agora eu tenho calma. Eu não estou mais com pressa e nem tenho necessidade de mostrar novidades todos os dias da minha vida para as pessoas. Às vezes, eu crio mais, às vezes, menos. Eu vou mantendo o meu ritmo que sim, muda com os dias, com meu humor, com os hormônios. Não vou mais exigir de mim uma crítica ferrenha, um super hiper mega ego que me faz fazer o que todo mundo faz.

Um dia destes li uma frase que tem tudo a ver comigo, como eu estava vendo as coisas e com a qual, quero encerrar esse artigo: “É péssimo você se obrigar a ser igual a todo mundo e péssimo se obrigar a ser diferente.”

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.