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por Andrea Pavlovitsch

Vá para a margem do sistema vigente

A vida é como um rio. Um fluxo constante de acontecimentos. Mas esses acontecimentos não são exatamente escolhas nossas. São as coisas que vão nos acontecendo. O status quo das coisas, as pessoas, a cultura, o pensamento vigente, tudo o que está ao nosso redor.

Esses dias um amigo estava inconformado. Quer comprar sua primeira casa, mas esbarra em um montante tão absurdo de exigências que ficou desanimado. Uma entrada irreal (para os padrões de vida do brasileiro médio), uma prestação alta e uma qualidade e localização duvidosas. Ao mesmo tempo, carros e mais carros chiques andando pelas ruas. Pessoas com bolsas de grife, o retrato da desigualdade.

Sim, isso é o Brasil. E é só você passar uma semana em um país de primeiro mundo para você se sentir a pior criatura e amaldiçoar seus antepassados por terem tomado o navio errado. Mas é o que temos para hoje. É a nossa terra, de onde viemos, para onde vamos. Queremos estar aqui, apesar de ver tudo errado.

E está. Um caos generalizado. Uma mídia controladora, que empurra tudo goela abaixo. Uma internet de haters e especialistas em coisas nenhuma, repetindo padrões que nem sabem de onde vieram. Médicos formados pelo Globo Repórter e Bem Estar. Economistas formados pelo Bom dia Brasil, e técnicos de futebol formados por, bem, por todos os outros programas que existem.

Pão e circo. Como na Roma antiga, escutamos demais, lemos de menos. Não conhecemos os grandes clássicos e só escuto que “estudar é bobagem, o João da esquina ganhou dinheiro sem nunca ter lido um livro”. Sim, é verdade, e é mérito dele. Mas ler e estudar abrem a mente para não sermos escravos, alienados pelo primeiro pacote de batatas fritas do Mc Donald's. Faz com que pensemos porque as coisas são como são.

História mostra como chegamos até aqui. Mostra coisas como o fato de odiarmos a segunda-feira e falarmos tão mal do nosso trabalho. Geografia mostra como estados como o Nordeste são mais pobres (não só por isso, obviamente), por terem sido menos favorecidos pela agricultura (São Paulo só ficou rico depois do ciclo do café, ou seja, pela agricultura). Enfim, isso nos mostra a verdade por trás das vinhetas bonitinhas e das fofocas das celebridades.

Mas é melhor só reclamar. Só fingir que não é com a gente. O meu amigo falou: mas temos que seguir o fluxo, lutar é pior! Não é fugir ou lutar. É sair. É ir para a margem de tudo isso. É entender o porquê, é ter uma atenção plena ao que escutamos, ao que entra na nossa mente e saber, conseguir de fato filtrar as informações. Enfrentar nunca deu certo. Seguir nos torna infelizes. Que tal sair para pensar?

Existe sim solução para tudo. Mas, no barulho das soluções mágicas, fica difícil de encontrar. Pense, medite, acredite, enfrente o que precisar ser enfrentado, mas, pelo amor de Deus, saiba o que você está falando e fazendo. Sim, tudo é complicado. Sim, isso é a vida. Mas se estamos aqui é porque somos capazes. Sobrevivemos até agora, somos fortes e podemos. Mesmo que precisemos descansar e limpar a mente antes.

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.