por Helyete Santos

Mulheres Fracassadas

Um dia desses, enquanto eu sentia e abençoava o sol, uma mulher se aproximou e sentou-se ao meu lado.  Iniciou uma palestra comum, daquelas que cravam suas verdades sobre o governo e despejam palavrões em todas as frases. Acredito que o som da palavra “puta” lhe fazia muito bem, porque não a deixava esquecida em nenhuma delas. 

Tinha uma pronúncia arraigada à “Santa Terrinha” e eu entendi naquele momento, que ela havia brigado com a vida de vez. Contou que morava sozinha e muito bem, num casarão repleto de quartos vazios há trinta e um anos quando seu marido partiu para longe, atrás de uma mulher gorda e feia, que carregava ainda três filhos pequenos e inocentes. 

Assim, partiu para a consideração de que é melhor ficar sozinha, porque os homens, todos sobre a face da Terra, não prestam. Eu quis rebater suas ideias com argumentos simples e exemplos concretos para salvar a condição de sub humanos que ela os colocara, mas não deu certo. Acabei me calando. Era melhor ouvir suas considerações sorrindo, um sorriso sem sinceridade.

Fez outras considerações. Disse da educação, dos jovens, dos pais atuais e não sobrou nada, nem ninguém que tivesse  alguma parcela, por pequena que fosse, de bem. Estava tudo perdido. Ela também. Nada mais valeria à pena contradizê-la. Resolvi me despedir e deixá-la ao sol, mas sozinha. Afinal, fazer o quê?  Acredito que ela, meio a um jardim tão lindo, nunca deve ter observado, nem sentido, que as flores e as folhas bailavam ao som do vento e se mostravam para quem quisesse ver, a beleza da vida exposta pelo Criador. 

Conviver com o fracasso é muito difícil, mas sabemos que podemos diminuir e até convertê-lo num fato que nos pôs à prova e que pudemos sair dele como vencedores.

Comentários da autora

O ranço é o grande companheiro do fracasso, seja ele qual for. É antiquado, ou seja, faz parte do passado – do que já foi- e não volta mais.

Pessoas assim têm a característica de tornarem-se enfadonhas, mesmo junto daqueles que lhes rodeiam de muito carinho.

Entender que foi melhor assim, que não somos plenos perante a vida dos outros, que nossos caminhos se distanciam para outros encontros e aprendizados e, sobretudo, que existe a Lei da escolha revelada pelo Plano Maior, é difícil. Por isso é preciso que sejamos treinados desde pequeninos para sermos humildes e corajosos.

Acabou. Revivenciar o que poderia ter sido diferente não traz o passado para o agora. Agora é o momento do bem, do carinho, de uma nova etapa para ser feliz hoje.

Helyete Santos

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Sou paulistana. Atualmente, moro na cidade de Santos. Atuei como professora de Redação e tenho vários livros publicados sobre técnicas redacionais, como Pais e Filhos Entre Erros e Acertos Editora Edicon. Escrever traz à tona o modo sensível de se viver.