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por Ana Borella

A mulher e o sacrifício

O processo de evolução do pensamento e da consciência, dentro do conhecimento e tradição do Yoga, que estudo e vivo, incentiva o autoestudo. Momentos e pessoas decisivas (que com certeza são a gota d’água em um oceano de experiências) não necessariamente vêm de situações conhecidas, às vezes o próprio fato de ser uma nova realidade ou pessoas diferentes é que reforçam ou quebram um conhecimento ou condicionamento.
 
A ideia de valorização do sacrifício é grande na cultura humana, mas especialmente reforçada na mulher. Os sacrifícios dos homens, que protegem e são provedores, que lutam quando necessário, também lhes dá autonomia e poder. Os sacrifícios das mulheres não necessariamente.
 
Não sou especialista em religião, mas conversando com pessoas que estudam soube que na Índia, a ideia de que a mulher já nasce iluminada força a mulher a se contentar em ficar em casa, cuidar da família, se imolar pelo marido, ser uma sombra. Aparentemente o mesmo acontece com o judaísmo, não conheço os detalhes.
 
Com certeza acontece no cristianismo, onde a mulher é vista como a causadora do pecado original que nos arrancou brutalmente do paraíso, e por isso deve espiar seus pecados em uma vida pura e devotada. Existe um conceito no Yoga que eu gosto muito que é chamado Santosha, ou contentamento, para simplificar. Uma pessoa, homem ou mulher, pode ser feliz em qualquer situação, mesmo as que não escolhe, mas isso acontece porque nos sentimos livres internamente. 

Se você se deixa aprisionar por conceitos e preconceitos ancestrais ou modernos, a possibilidade de felicidade é mínima e em seu lugar encontramos uma existência angustiante e dolorosa. 

Lembro-me de uma ocasião em que, viajando de avião, o piloto me chamou para explicar os procedimentos de segurança¹ e me fez colocar e retirar uma máscara que continha oxigênio em caso de emergência. Era bem diferente daqueles saquinhos que vemos nos aviões comerciais, parecia um capacete. Insistiu tanto que me senti meio incomodada e o capitão me disse que isso era muito bom, que eu deveria mesmo me sentir desconfortável até aprender bem, pois minha vida poderia depender disso. Depois de conseguir colocar e retirar a máscara várias vezes sem errar, ele sorriu e me disse que agora eu só precisava lembrar de colocar a minha máscara antes de tentar ajudar alguém.
 
Eu já tinha visto essa informação anteriormente, mas ela nunca tinha feito tanto sentido como naquele momento, com aquele homem que seria o piloto do voo e que insistia tanto que eu conhecesse e cuidasse de minha segurança. 

Ajude a si mesmo e aos outros
 
Ajudar a si mesma antes de ajudar aos outros. Não parece uma frase que faria sucesso nas redes sociais, não é mesmo?
 
O Yoga era proibido para mulheres (no entanto no Yoga de Vasishtha existem mulheres nas aulas que o mestre está ministrando ao jovem príncipe Rama) pela sociedade, porque Yoga ensina a olhar para si mesmo e a partir da prática disciplinada se tornar uma pessoa livre. Livre para escolher se você quer ou não ser mãe. Se você quer ou não ser esposa. Se você quer ou não ser uma sombra. Se você quer ser dependente ou independente.
 
O seu tipo de liberdade é sua escolha, mas é sua escolha. Por isso mulheres não praticavam Yoga, porque não lhes era dado o luxo da escolha. Para o Yoga não existe uma única realidade feliz, felicidade é o que você cria vivendo um amor profundo e sem apegos.
 
São muitos os caminhos possíveis, e o Yoga propõe começar a sua jornada por si mesma. Aprofundando-se não na racionalidade e hiperanalisando tudo, mas aprendendo a se ouvir, se sentir, se comover, se envolver completamente pelo momento presente. Dentro dessa ideia não existe sacrifício, tudo que se faz com amor incondicional, sem expectativas, só porque é sua escolha e a melhor escolha que poderia ser feita nesse momento (com toda a sua consciência física, emocional, racional, instintiva, transcendente) como um ser completo, só traz mais felicidade, energia, vitalidade e liberdade.

 Por isso não existe sacrifício quando se é livre, nesse caso não é sacrifício, é escolha. Liberte-se das impressões profundas que a limitam. Viva com consciência e respeito por si mesma. Se você acha que esse texto deu muitas voltas para chegar à sua conclusão olhe à sua volta, e perceba que nem sempre o caminho da consciência é linear.


¹ Trabalhei em uma companhia aérea de carga, viajávamos na cabine ou em um compartimento entre a cabine e o ambiente de carga, que continha, no geral, dois assentos.

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Ana Borella

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Professora de Yoga há 18 anos. Fundadora e Diretora da Associação de Yoga, onde dedica-se ao trabalho de construção da consciência e da ética. Co-autora do “Livro de Ouro do Yoga”.