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por Andrea Pavlovitsch

Pegue sua juventude de volta

Estava sentada na sala de espera do médico na semana passada, junto com a minha irmã. No outro sofá, estavam duas mulheres, na faixa dos 50 anos. Engatamos uma conversa que parecia que nos conhecíamos a anos. Elas eram agradáveis e com histórias de vida bem interessantes. Lá pelas tantas minha irmã, no meio de um papo sobre idade, perguntou a uma delas “Quantos anos você acha que ela tem?”, apontando o dedo para mim. E ela respondeu “Uns 40 e poucos”.

Eu não tenho 40 e poucos e nem problemas com a idade. Mas aquilo me fez pensar. Por que aquela mulher estava achando que sou mais velha do que eu sou? Confesso que a minha primeira reação foi correr para a farmácia mais próxima e comprar um bom anti-idade para a área dos olhos. Mas, no fundo, eu sabia que não era só isso.

Entrei em uma profunda análise da minha vida. Estou mudando sim, algumas coisas. Comecei a fazer exercícios, voltei para as aulas de dança da adolescência, mudei a alimentação e estou controlando melhor o meu estresse. Até andei me arriscando em atividades novas, então, o que estava acontecendo? Que horas eu, que sempre pareci muito mais nova do que eu sou, envelheci? Não, não estou falando da idade em si e nem das rugas, mas o que andou envelhecendo dentro de mim?

A idade é inevitável, mas a velhice é opcional. Velhice é uma doença. Minha avó, aos 88 anos falou para a minha mãe: “Poxa, agora que estou ficando velha estou sentindo um pouco de dor”. E ela já tem 88 anos. Ou seja, agora que ela decidiu que está velha, vai sentir os sintomas da velhice.

Conheço velhos de 20 e poucos anos. Conheço gatinhas assanhadas de 60. Todos terão que passar pelo mesmo processo mas por que alguns entram nisso e outros não? E, mais importante, por que eu estava entrando?

Comecei a analisar meu lado sério. Aquele responsável, perfeccionista, que precisa manter tudo em ordem, tudo no lugar. Um lado meio medroso, que não se arrisca mais, que não “inventa mais moda”, como diria o meu pai (e aqui Freud explica). Aquele que acha bobagem brincar carnaval, que não quer que as crianças se sujem perto dela. Aquela criança dentro de mim que, de livre, não tinha mais nada. 

São tantos papéis que precisamos cumprir: mulher, profissional, dona de casa, escritora (no meu caso), que não dá mais tempo de ser só a gente mesmo. De fazer bobagens gostosas como se acabar em uma piscina, assistir Sessão da Tarde, comer uma panela de brigadeiro e comprar uma Barbie só porque gostamos da embalagem. Não podemos cometer erros. 
Precisamos de uma vida regada à perfeição, a fotos no Instagram e a regras, muitas regras. Não beba café depois das cinco, não falte à musculação, não deixe seu cliente esperando a ligação. Tudo isso é muito legal, mas nos tira o principal: ser a gente mesmo. Assim mesmo, meio preguiçosa, brincalhona. Percebi que não dou mais risadas como antes. Percebi que não passo horas colando figuras na agenda (como eu sempre gostei). Percebi que fiquei meio parecida com as pessoas que eu jurei que nunca me pareceria. E não curti, nadinha, disso tudo.

O que fazer agora? Resgatar a minha criança livre. Alegre, brincalhona, meio boba mesmo. Não interessa se todo mundo rir das minhas bobagens. Não interessa se eu não passarei mais a imagem de “um ser inatingível” ou uma profissional exemplar. Isso está me custando muito caro. Não quero ter cara de menina para sempre, isso não existe. Mas quero ter essa alma até o dia de fechar os olhos pela última vez, lá pelos 100 anos. Assim mesmo, esperta, inteligente, sagaz, bagunceira, esquisita e meio bobona. Não tem problema. É isso que nos fará jovens para sempre. Isso e um bom anti-idade para a área dos olhos. Entendeu? 

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.