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por Marcos de Paula

Tempo e espaço

Crescentemente nos deparamos com pessoas mais velhas; grupo humano que hoje também é percebido como terceira idade, enfrentando desafios como é o de conviver com um calendário que já não se revela com tanto sentido e importância, pois o presente maior é o agora, sem necessidade de deixar pra depois aquela vontade de fazer ou dizer algo, pois sabe que esse depois pode não acontecer.

Surge então ainda mais bem definida e significativa uma certa relação de tempo e espaço que converge para um cenário limitado e desafiador, onde no palco pode haver a família, os filhos, os amigos, os enredos e as histórias explícitas ou implícitas; momentos que colaboraram para a marcação de um tempo norteado pelo amor e pela dor que faz parte das experiências humanas.

Neste cenário, se vivenciado com alguma lucidez, busca-se através de uma atuação consciente ou inconsciente resgatar algumas possíveis perdas, pequenos ou grandes enganos e desenganos, pois percebem que a vida não se limita mais pelas suas capacidades físicas, mentais, projetos e sonhos; pelos jogos de culpas e desculpas que agora já terão poucas chances de prorrogação, nem mesmo se houveram muitas interrupções intencionais ou não.

Constata-se a partir daí, que a cortina desse palco e dessa peça bem pregada está se fechando, que a chance de verdadeiramente saborear essa luz e esse ambiente é agora, despojando-se de todo e qualquer figurino ou adereço que tenha pesado e dificultado até então o caminhar, deixando de lado a marcação de cena, o texto decorado, a maquiagem e as máscaras... Pois o ato, neste caso, só se faz pela presença de corpo e alma sem amarração e de forma arejada e intensa de vida, livre de conceitos e pré-conceitos, pois assim estaremos verdadeiramente atuando até o fim e não assistindo a vida como meros espectadores.

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Marcos de Paula

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Marcos D. de Paula é psicanalista, atendendo adolescentes e adultos na zona sul de São Paulo. Participa também do grupo Big Riso, voluntários que se vestem de palhaços e visitam hospitais do Grande ABC e de São Paulo, levando alegria e descontração, dentro de uma perspectiva de humanização hospitalar.