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por Andrea Pavlovitsch

Caça às bruxas

Estou assistindo a um seriado chamado “Outlander”. É uma fantasia sobre uma mulher que toca num círculo mágico no ano de 1945 e é arremessada no tempo até 1743. Passa então a viver como uma estrangeira inglesa no meio das guerras escocesas. A história é interessante e bonita. Ela se apaixona por um galã e todas as cenas são sempre muito realistas: sexo, estupro, violência, castigos e morte. E mostra a maneira como as pessoas pensavam há 200 anos. O detalhe é que não pensavam tão diferente assim dos dias de hoje.

Em um dos episódios, ela, por ter algum conhecimento de medicina, é presa e acusada de bruxaria. Confesso que já assisti a muitos filmes com o tema, mas a maneira como o diretor coloca a população contra ela é interessante. As pessoas enraivecidas pedindo que "queimem a bruxa". Deixando seus afazeres diários e focando somente num julgamento injusto e superficial. Olhando a mulher e sentindo-se no direito de dizer que ela é “maldita” ou tem “pacto com o diabo” sem nem mesmo ter visto uma única prova. O ódio estampado na face, o orgulho de “não ser aquele tipo de pessoa”.

Qual é mesmo a diferença para hoje em dia? Talvez seja que as pessoas não se mostrem. Estão escondidas por trás de uma tela de computador, de celular, cheias de opinião e discórdia. Ou atacam, vilmente, a plena luz do dia qualquer coisa que achem ser o seu “defeito” ou aquilo que a condena a ser “diferente”.

Usam qualquer coisa para isso. Gorda, magra demais, loira, burro, nerd, pobre, negro, gay ou qualquer outra coisa que seja. Sendo real ou não. Fazendo sentido ou não. Mostrando somente, através dos seus próprios olhos e do seu próprio olhar, como são infelizes e rancorosas.

Quem julga o próximo começou consigo mesmo. São pessoas que se julgam inferiores pelos mais diferentes motivos, fazendo ou não sentido. Eu posso ter uma autocrítica sob meus atos, isso é perfeitamente saudável. Posso perceber que existem coisas em mim que seriam melhores, para mim mesmo, se fossem diferentes. Mas não estou falando disso. Estou falando de uma mão pesada. Pessoas que se julgam num grau tão baixo que, geralmente, não demonstram. 

São aquelas pessoas supercorretas? Que nunca fazem nada fora da moral e dos bons costumes. Desconfie de gente assim, porque guardam sempre perigosos segredos. Não que não possamos ser corretos e estar do lado do bem, isso é ótimo. Mas até Jesus sabia das suas fraquezas. Gente sem fraquezas ou sem sombras são as mais perigosas. Ou pessoas extremamente arrogantes, que se julgam donos da verdade. Existe ainda aquele tipo do “eu passei por isso e agora vou passar para frente”. Enfim. Cabe aqui cada um pensar no próprio julgamento do próximo ou de si mesmo.

Mas e quando você é a vítima? Não é legal. Eu já passei por isso algumas vezes na vida e, digo, é horrível. Mas, toda vez que algo assim me acontece, repenso meus próprios julgamentos. Será que estou atraindo essa “atenção negativa”, principalmente em casos específicos, porque também estou julgando algo ou alguém de forma injusta? Ou pior, e o mais comum, será que estou me condenando, mesmo que seja lá dentro, por isso? Será que existe em mim algo atraindo o mal do outro?

São coisas para pensar para sairmos do vitimismo ou achar que precisamos combater o mundo. Não, o ódio e a maledicência no mundo não vão acabar. E, quanto mais você se destacar, em qualquer coisa, desde a sua aparência até o extrato no banco, mais atacado você será. É o caso de saber disso, lembrar que “bruxas” são queimadas há séculos e isso faz parte da nossa evolução. Sair dessa energia e acreditar em você, nos seus dons, na sua beleza, na sua vida. O ódio, como a vingança e, segundo uma frase de Shakespeare, é um veneno que se toma esperando que o outro morra. Ou seja, só faz mal mesmo a quem fala. Poxa, que pena...

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.