por Helyete Santos

Dividindo segredos

Se pararmos um pouco de olhar somente para o nosso quintal, veremos gente. Gente escondida atrás de máscaras convulsivas, ofegantes, destemidas, tristes, inertes e até sorridentes. O  mais comum são fisionomias adequadas ao seu grupo: Todos sérios, contrariados, apenas sorrindo ou mesmo gargalhando sem saber como nem porquê.

Isso não quer dizer que neste, ou naquele grupo, todos estejam na mesma sintonia, mas se esforçam e até ensaiam para manter as aparências e não serem removidos como esmaltes das unhas já sem brilho. É por isso que, mais uma vez, constatamos como é difícil julgar.

Quantos erros em nossa caminhada monitorados apenas pela certeza inicial do que nossos olhos detectaram, mas que depois de contatar a realidade, se surpreendem com a verdade.

Foi assim que, de repente, olhei para trás e me deparei com ela: Uma mulher carrancuda, esquisita, com traços grosseiros, que olhava para bem longe de onde estávamos- um local acanhado. Mas era tão distante aquele olhar, que penetrava as paredes do local. Isso me inquietou muito.

À nossa frente, uma garotinha de dois anos, com seus cabelos loiros sobre os ombros e olhos amendoados, agarrava-se às pernas da avó  e passeava entre nós como se bailasse ao som de uma orquestra sinfônica que só ela ouvia. O tempo passava. Pequenos grupos se formavam à espera do atendimento e ela continuava ali, estática, sem reclamar, olhando sem olhar.

Em um determinado momento, deu um suspiro sentido e disse estar lembrando de sua filha. A filha dileta. A mais carinhosa das três, a mais próxima e a mais querida. Ela havia partido com seus trinta e um anos. Sem despedidas, sem causa definida.

É... A gente encontra por aí tantas mulheres carrancudas, mas não sabemos o por que, pois não lemos, nem interpretamos seus desesperos, seus sofrimentos e saudades ardidas que cravam sua dor.
Naquele momento, senti vontade de acalentá-la em meus braços, dizer palavras sinceras e transmitir-lhe uma força divina intensa, capaz de suavizar sua dor.

Aquela cena não me sai da lembrança. Quisera poder gritar ao mundo  um alerta de confraternização que fosse capaz de entrelaçar nossas mãos, conquistar todos os corações, pedir perdão sincero por todos os erros cometidos e não repeti-los.

Com certeza, seremos ainda submetidos a outros testes para confirmarmos nossa mudança. Afinal, elas continuarão por aí: Distantes e carrancudas.  

Helyete Santos

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Sou paulistana. Atualmente, moro na cidade de Santos. Atuei como professora de Redação e tenho vários livros publicados sobre técnicas redacionais, como Pais e Filhos Entre Erros e Acertos Editora Edicon. Escrever traz à tona o modo sensível de se viver.