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por Andrea Pavlovitsch

Medos Irracionais

Hoje eu vou contar uma história que não é minha, mas que me mostrou muitas coisas de como a nossa insegurança e falta de autoconfiança, podem minar as nossas vidas. Comecei a atender G. - não vou contar o nome, mesmo ela autorizando - há 8 meses, uma moça de 41 anos que me pareceu bem resolvida demais para um primeiro momento. G. trabalha há 4 meses numa empresa de alimentos, para onde foi transferida depois de 6 anos em outra da mesma área. É bonita a seu modo, tem facilidade com línguas, é bem humorada e faz muitas coisas interessantes. Não parece ter uma autoestima baixa, mas mesmo assim, vê-se às turras com a balança de vez em quando. Enfim, uma pessoa normal. G. está indo bem no seu novo emprego, mas a chegada de uma menina a deixou insegura.

A tal menina, de 24 anos, entrou na empresa há pouco mais de um mês. É muito bonita, atraente, parece já ter feito coisas demais na vida e demonstra um entusiasmo que, na visão de G., chega a ser irritante. E G. irrita-se, de fato, com a moça. Ela já vinha me dizendo sobre possíveis rivais dentro da empresa. Já tinha identificado 2 ou 3 mulheres (sempre mulheres) com as quais ela não conseguia se relacionar (no caso, me pareceu o contrário, mas tudo bem).

Ficava insegura cada vez que uma delas dava uma ideia nova, ou conseguia novos clientes. Ela ficava triste e chegava a se deprimir com isso. Sempre pensando que, logo logo, ela não teria mais lugar ali. Mesmo quando seu chefe direto elogiou seu trabalho e chegou a dizer que, do jeito que iam as coisas, ela seria promovida rapidamente. Mesmo assim, ela pareceu não acreditar. Algum mecanismo nesta moça a coloca para baixo, a faz se comparar com as demais. No momento está se comparando com a menina de 24 anos. Ela acha que a moça é mais jovem, mais bonita e por esses motivos terá mais chances de se dar bem no seu trabalho. Está transformando sua vida profissional num inferno que poderá levá-la à ruína.

Parece que tem medo de competição porque, na cabeça dela, ela já perdeu. G. conta que nunca gostou de jogos. Escondia-se no banheiro da escola para não jogar queimada ou vôlei com as outras garotas. Ela até gostava dos outros exercícios, mas os competitivos a deixavam nervosa e ansiosa. Não vou mais entrar em detalhes, só passar para vocês as conclusões as quais chegamos. G. é insegura e é sim, no fundo, muito competitiva. Mas nunca se sente à altura de outras pessoas, mesmo que elas (os outros) apresentem claras desvantagens. G. tem, por exemplo, mais experiência, mais inteligência e sabe de todos os seus atributos.

Mas quando chega alguém que ela julga (sim, ela que acha isso) mais competente do que ela, ela desiste. E é isso que está fazendo agora, inclusive, pensando em pedir as contas do local onde trabalha. A insegurança do ego ganhou de todo o resto. O local de trabalho é só um exemplo de onde estas coisas podem nos combater. Nos relacionamentos amorosos, por exemplo, isso acontece muito. Já vi muita gente desistir de paqueras com ótimas chances por conta de rivais imaginárias. Claro que tudo está só na cabeça da pessoa, mas na comparação, ela sempre perde. Veja como é complicado se deixar levar por isso. Deixar-se levar pelo julgamento de que aquilo que a sociedade aprova (a idade, a beleza da jovem) são mais importantes do que tudo o que nós já temos.

É como se toda as qualidades de G. sumissem frente aos itens apresentados pela garota. E, perdendo, ela prefere se retirar do campo. É aí que vem o famoso fracasso. Não é necessário, de maneira nenhuma, que passemos por cima dos outros para obter o sucesso. Mas também não podemos esticar o tapete vermelho para pessoas que notamos ter um potencial semelhante ao nosso. A insegurança, neste caso, custou um emprego muito bem remunerado e com boas chances de melhora.

A loucura da mente, que entrou na fantasia do menos, levou com ela todas as chances. Daqui a poucos meses, como já aconteceu antes com G., ela estará deprimida pensando que nada do que ela faz dá certo, que as coisas não conspiram nunca a seu favor quando, no fundo, o que ela fez foi deixar seus pensamentos dramáticos tomarem conta da sua vida. Isso é muito, muito grave e muito, muito triste. Perceber-se é justamente entrar nestes processos de negação e saber que sim, estamos inseguros, mas temos que continuar mesmo assim. Desistir aqui, é desistir de si e assumir uma profecia auto-realizável de que, não, eu não sirvo mesmo para muita coisa.

É como se as lembranças ou traumas de infância ficassem ressoando dentro da cabeça dela por anos a fio, derrubando tudo o que vê pela frente. Isso tudo, na vida de uma linda mulher de 41 anos. Cuidado com o que você pensa porque, possivelmente, será o que a sua vida vai mesmo se tornar. Seja lá o for, você sempre estará certo. Se pensar em desgraça, terá desgraça. Se pensar em prosperidade e sucesso, é isso que terá.

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.