por Paulo Bregantin

Narcisismo

O Mito

“Diz o mito grego que Narciso era uma criança tão linda e admirada que sua mãe, Liríope, preocupada com esse excesso, levou-o até o sábio Tirésias.

Ele lhe disse que o menino só teria uma vida longa se jamais visse a própria imagem. Por muito tempo, essas palavras pareceram destituídas de sentido, mas os acontecimentos que se desenrolaram mostraram seu acerto.

Na adolescência, Narciso era um jovem belíssimo, mas muito soberbo. Ao passear certo dia pelo campo, a jovem Eco o viu e se apaixonou por ele, mas o rapaz a repeliu.

Um dia, cansado, Narciso dirigiu-se a uma fonte de águas límpidas. Eis então que a profecia se realiza: ao se ver refletido no espelho das águas, enlouqueceu de amor pelo próprio reflexo. Embevecido, não tinha olhos nem ouvidos para mais nada: não comia nem dormia. Em vão, Eco suplicava seu olhar. Mas Narciso só olhava para si. Apaixonado, ensimesmado, busca para aplacar sua dor um outro que, sendo ele mesmo, não lhe responde. Realiza-se, então, seu destino: mergulha no espelho e desaparece no encontro impossível.

Sem a possibilidade de reconhecimento do que é a própria imagem e do que é o outro, o corpo de Narciso tornou-se pura miragem e desfez-se nas águas...

E Eco, que só a Narciso perseguia, só por ele clamava, só nele vivia, petrificou-se e perdeu o poder de sua própria palavra.

Narciso não cria laços; não partilha seu encanto. Perde-se na imagem de si. Eco também se perde e, no desencontro, entrega-se à repetição compulsiva, sem poder se separar da miragem idealizada.”

Para a Psicanálise

Para a psicanálise, trata se de um aspecto fundamental para a constituição do sujeito. Sim, pois todos nós precisamos do amor-próprio, acreditar em nossas ações e reações, aceitar quem somos. Mas a questão é quando isso se torna um exagero e desencadeia o processo de narcisismo, ou seja, diminuímos os “laços” com os outros e o amor a si mesmo torna-se uma doença.

O processo narcísico acontece na infância onde recebemos os primeiros afetos dos nossos progenitores e as pessoas mais próximas. Um tanto de amor por si é necessário para confirmar e sustentar a autoestima, mas o exagero é sinal de fixação numa identificação vivida na infância.  

A criança vai criando uma sensação de que tudo funciona em função dela. A ilusão infantil de que o mundo gira ao nosso redor é decisiva nessa fase, mas para o desenvolvimento saudável é necessário que se dissipe, conforme nos deparamos com frustrações e descobrimos que não ser o centro do universo tem suas vantagens. Essas frustrações são fundamentais para a dissolução do narcisismo “tido como primário”.

Com base nas ressonâncias desse mito, Freud desenvolverá um dos conceitos mais importantes de sua teoria Psicanalítica: o narcisismo.

Mencionado pela primeira vez em seus escritos em 1909, é apresentado como uma fase própria do desenvolvimento humano, quando se realiza a passagem do autoerotismo, do prazer centrado no próprio corpo, para o reconhecimento e a busca do amor em outros objetos – diferentes de si. Como está descrito em sua obra, Freud deixa bem claro que o narcisismo é parte intrínseca do desenvolvimento psicosexual das crianças. E que se apresenta por narcisismo primário e secundário.

Segundo Freud, o narcisismo primário consiste na ausência total de relação com ambiente durante a infância. Já o secundário, é o retorno do amor da libido para o próprio eu, depois de ter sido direcionado em algum momento a algum objeto do mundo exterior.

Passagem importante e cheia de inquietações já que implica a saída da gratificação por aquilo que é efeito apenas da própria imagem – “Narciso só reconhece o que é espelho” – para a realização de uma das conquistas mais importantes da cultura: a possibilidade de viver, aceitar e trabalhar com a alteridade e, portanto, com as diferenças. A aceitação das diferenças entre as pessoas ou o mundo social é fundamental para o aprimoramento do processo de dissolução do narcisismo, pois é no convívio social onde aprenderemos que as pessoas são diferentes, pensam diferente e agem de forma diferente.

Quando não estamos dispostos a aceitar as diferenças existentes entre as pessoas, corremos o risco de iniciar um processo de individualismo e, com isso, ocorrer o narcisismo patológico.

Em O mal-estar na civilização, de 1930, Freud diz que um dos grandes obstáculos do homem em sua busca pela felicidade, e que lhe traz maiores dificuldades, é o sofrimento resultante das relações humanas, pois elas nos colocam em confronto com aquilo que, não sendo espelho, nos solicita novos posicionamentos.  Esses posicionamentos frente a sociedade nos confrontam com nossa realidade, ou seja, o medo de não alcançar a felicidade e aprovação dos outros seres da mesma espécie acarreta em médio e longo prazo os efeitos maléficos do narcisismo.

A legitimidade do conceito justificou-se a partir da experiência freudiana com a clínica, naquilo que reconheceu como resistência dos pacientes em abandonar suas posições amorosas, nas manifestações da onipotência infantil e do pensamento mágico, nas doenças orgânicas e na hipocondria – quando toda a libido se volta para o corpo doente – e nos delírios de grandeza das psicoses. Freud então observou que pessoas hipocondríacas e as que têm delírios de grandeza, sim, aqueles que têm problema sério com crítica, dificuldade de aceitação do outro como melhor que si mesmo, entre outros processos de “grandeza”. Nesse processo, a pessoa agora adulta volta a sentir os desejos da infância quando ele era a centro das atenções.

Pois quando somos crianças, tudo roda em torno dela e, com isso, vai desenvolvendo que a vida funciona a partir dela.

A criança quando nasce é rodeada por pessoas que enviam para ela vários olhares e desejos. Quando se contemplar no espelho, não verá o simples reflexo físico de uma imagem, mas tudo o que esses olhares depositaram no seu corpo. Freud vai falar que é um momento fulgurante de “sua majestade, o bebê!”.

Júbilo para a criança e para os pais, que veem renascer das cinzas sua própria imagem idealizada e todos os seus anseios irrealizados. Instante de narcisismo primário – constitutivo e alienante. E que é natural em todos os lares.

Os pais e cuidadores vão criar expectativas sobre o bebê e vão ensinar que ele será um herói e vai vencer todas as batalhas da vida; vão evitar que esse bebê tenha decepções e que corra riscos; esses são processos normais e necessários para a criança desenvolver seu amor-próprio e a sua segurança individual. Se for excessivo, torna-se uma prisão, comprometendo o futuro, a possibilidade de construção de projetos e os ideais. Todo excesso na criação e demonstração de segurança para a criança pode ser prejudicial no processo narcísico primário ou narcisismo primário.

Se tudo correr bem, a criança se desligará desses olhares e desejos dos seus progenitores e cuidadores mais próximos e escapará do destino fatal de Narciso – embeber-se, afogado, na tentativa de perpetuar o encontro com a imagem que as águas lhe devolviam. A criança então vai passar por esse processo ao se encontrar frente à sociedade ou ao convívio social e perceber as diferenças entre as pessoas e os desejos de cada, essa “decepção” será na realidade a sua liberação e o início do caminho de uma vida dentro da normalidade. Isso é o que Freud chamou de narcisismo das pequenas diferenças – e acirra os conflitos, seja nas pequenas discordâncias do cotidiano ou nos grandes conflitos existenciais.

Se a criança não conseguir transpor esse processo de adaptação do convívio e do mundo social, ela poderá desencadear um outro processo que será o narcisismo patológico que estará propício para o pré-conceito, doenças orgânicas, hipocondria, parafrenia, megalomania, fanatismo, violência, destruição do outro e de si mesmo, sensações exageradas de grandeza frente aos da mesma espécie, afastamento e isolamento nos relacionamentos e, por fim, o desejo de morte constante.

A tragédia vivida por Narciso não nos abandona. No mito, Narciso vai viver a vida toda assim. Quando transportamos para a vida real, podemos afirmar que sempre teremos a nossa volta os desejos narcísicos e seremos sempre atormentados dia após dia no desejo de voltar a ser o “centro das atenções” como éramos quando criança. Essa busca nada mais é que o reencontro daquele olhar materno que dizia que éramos tudo para todos o tempo todo. Essa ilusão que um dia nos ensinaram nos fará por vezes regredir ao estágio de criança narcísica, porém, se tivermos consciência de que isso é na realidade algo verdadeiro, porém do passado, ficaremos bem. Se por acaso não conseguirmos perceber ou ter essa consciência, estaremos como narciso, preso ao nosso destino de mergulhar e morrer em si mesmo por não conseguir ver mais ninguém a nossa volta.

O Narcisismo, então, é algo normal do processo de desenvolvimento do ser humano e sua fixação pode ter como problemática as doenças orgânicas e os desequilíbrios do aparelho psíquico.

Paulo Bregantin

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Mais de 25 anos dedicado ao cuidado de pessoas, sendo Psicanalista Clínico e escritor com várias obras publicadas. Atua nas redes sociais como dono, gerenciando a página Paulo Bregantin e o Grupo Psicanálise Integrativa.

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