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por Hellen Reis Mourao

O Rei Sapo dos irmãos Grimm

O rei sapo, ou o príncipe sapo, é um conto de fadas famoso pela sua versão dos irmãos Grimm. No conto temos os seguintes personagens: O rei e suas filhas, sendo a caçula sua favorita. Não há menção da rainha, portanto podemos supor que a atitude consciente, simbolizada pelo rei precisa de renovação, pois não há o casamento entre feminino e masculino, há uma ausência de Eros.

Nesse caso, a consciência se apresenta muito rígida, presa a regras, leis e normas. Falta flexibilidade, acolhimento e sensualidade. A princesa é a heroína do conto, ou seja, ela é quem realizará o processo de transformação e renovação da consciência coletiva. Ela restabelecerá o funcionamento normal e sadio da situação vigente, onde todos os egos desviam do padrão básico e instintivo da totalidade.

A princesa brinca com sua bola favorita e essa rola em direção ao poço. A bola simboliza aquilo que possui movimento involuntário e que se move e continua rolando mesmo com todas as vicissitudes, obstáculos e dificuldades do mundo material. Isso significa que uma parte do nosso inconsciente nos impele ao processo de individuação sem que precisemos forçar o processo. É algo espontâneo, como um desejo repentino, ou algo que “surge do nada” e altera o curso de nossas vidas.

O sapo representa o lado reprimido masculino na princesa

A bola rola em direção a um poço com água. A água é símbolo das emoções e também do inconsciente pessoal. Nesse caso, algo provindo do inconsciente da princesa salta a consciência, trazendo um conteúdo emocional que deverá ser assimilado.

O poço é um local onde as pessoas costumam retirar água para matar a sede, ou seja, ele simboliza um caminho ao inconsciente que traz um conteúdo numinoso capaz de renovar a vida. O poço também tem uma simbologia feminina, é a mãe terra que fornece a água da vida. Portanto é desse local que o feminino poderá ser renovado. 

Mas desse local sai algo repugnante, um sapo. Na mitologia, o sapo é geralmente tido como um elemento masculino, que pode tanto envenenar como dar vida a alguém. O sapo lhe devolve o brinquedo querido, em troca de comer e dormir com ela. Ou seja, ele quer ser plenamente aceito na vida privada como se fosse um ser humano.

Vários conteúdos de nosso inconsciente clamam por serem aceitos em nossa vida cotidiana, principalmente os arquétipos. O sapo aqui representa o lado masculino da princesa que está reprimido e subdesenvolvido. Ele precisa participar da vida dela para que possa começar a ter uma expressão mais humana. Ele é o homem superior da psique feminina que ainda está por vir.

Uma mulher extremamente feminina costuma ter uma compaixão em excesso por tudo o que é desamparado, o que pode ser muito nocivo. Ela precisa desenvolver a objetividade de seu lado masculino e alguma vez terá de colocar para fora qualidades “viris”, mesmo que a princípio seja de forma desajeitada. Pois quanto mais uma mulher é feminina, menos seu animus é agressivo e mais a vida tende a passar por cima dela.

Algumas versões do conto dizem que a princesa beijou o sapo. Mas se ela tivesse feito isso, não teria entrado em contato com sua agressividade e ele não teria se humanizado. Ao não ter compaixão por um ser que lhe aparece repugnante ela o transforma e o deixa se expressar. Ela não foi inutilmente agressiva!

O problema agora é encontrar um meio termo na expressão desse masculino em seu mundo feminino. Mas agora ela pode ser uma mulher mais completa e ser fecundada por seu masculino interior, tornando-se um ser criativo e com uma expressão mais objetiva no mundo.

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Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.