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por Andrea Pavlovitsch

Seja mestre da sua bateria

Tive uma cliente lindinha. Ela tinha 17 anos, era jovem e muito inteligente, além de bonita. Mas brigava com a balança e com os maus hábitos alimentares. Ela se gostava sim, do jeito que era. Uma moça grande e “forte dentes e músculos, peitos e lábios” como diria aquela canção do Caetano Veloso. Começamos a trabalhar isso, e ela começou a perder peso. Fazia os exercícios que havia se proposto e estava feliz da vida. Perto de alcançar a meta que ela havia estipulado junto com um nutricionista (e que era bem perto da realidade dela) ela começou a se sabotar. Começou a comer mais, faltava aos treinos, estava relapsa com as idas à nutricionista e até nas sessões de terapia começou a se atrasar e faltar. Então, foi hora de intervir. Se ela queria tanto chegar na meta dela porque isso estava acontecendo?

Conversamos e ela me contou que não sabia. Que não tinha mais saco para comer coisas saudáveis. Que ir à academia tinha virado um fardo. Ela achava que já estava bem, não precisava mais daquilo. Fomos investigando mais e mais a fundo. Lá pelas tantas ela soltou, assim como quem não quer nada: “Mas se eu tiver o peso que sempre sonhei, qual será o meu objetivo na vida?”.

O que ela tinha não era fome. Era medo de não saber o que fazer com a vida dela. Emagrecer virou uma meta por si mesma, virou o único sentido da vida dela. Parece que nada poderia prosperar enquanto isso não acontecesse. Então, obviamente, ela deixou todos os sonhos de lado. Estava prestes a prestar vestibular, queria fazer faculdade, se formar, se casar e ter uma família. Mas isso parecia tão distante dela que ela desistiu antes mesmo de tentar. Então, a única motivação era emagrecer.

Quando ela se viu magra bateu o desespero. Faltavam poucos quilos e o que ela faria depois? Ao invés de se perguntar isso (o que é bem comum para a tenra idade) ela simplesmente decidiu ser gorda de novo. Se ela fosse gorda de novo, continuaria tendo um sonho. Poderia tentar e desistir de novo, pelo resto da sua vida.

Sei que parece surreal essa história, mas é mais comum do que você possa imaginar. As pessoas encontram um objetivo e ficam tão obcecadas naquilo que são viciadas no próprio objetivo. Não é mais uma etapa, mas é a coisa em si. Isso acontece muito com objetos amorosos. Você cismou com uma pessoa que não pode ser sua e parece que não desiste enquanto não conseguir. Ela pode nem ser o que você realmente quer ou precisa, mas se não for a perseguição ao outro o seu objetivo, o que faria com os seus dias?

As pessoas se viciam em coisas que parecem um objetivo em si, mas não são. Tudo são etapas de um processo maior e é nisso que precisamos focar. Imagine você como o mestre de bateria de uma escola de samba. Você lá na frente, com o seu apito. Os instrumentos são partes da sua vida, cada diferente área, e elas precisam andar e tocar juntas, em harmonia. Se alguma coisa desafinar, todo o resultado fica comprometido. Sim, às vezes você precisa ir mais para trás, precisa ir mais para a direita, chamar a atenção de algum músico, mas não pode deixar nada sem cobertura. Senão a sabotagem começa a minar os seus planos e logo você sentirá que não tem nada no que se segurar.

A vida é equilíbrio. Nada é um objetivo em si, muito menos as pessoas. Tudo é você. Todos os pontos da sua existência convergem para um ponto em comum: você. Então cuide disso, desse enorme presente que é a vida, e tudo vai caminhar. Junto e em harmonia. Sempre.

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.