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por Erickson Rosa

Autoestima: pelo direito de ser ter o cabelo na cor que se quer

Decidi escrever este texto após minha esposa optar por deixar seus cabelos ao natural, sem pinturas. Alguns fios brancos já aparecem e isso mexe com sua autoestima. Algo totalmente natural, que faz com que muitas mulheres sofram com isso.

Já falei em outro artigo aqui no site sobre a normatização da beleza e de como isso pode ser cruel em um texto sobre explante. E ao ver minha esposa passar por diversas situações por causa de algo tão simples quanto deixar seus cabelos crescerem sem nenhuma química, creio ser necessário escrever algo sobre isso. Não apenas por ela, mas por todas as mulheres que passam por isso.

Cabelos brancos e a norma estética

Mulher branca de cabelos brancos e a cabeça apoiada na mão.

Como homem, jamais tive problemas ao deixar meus cabelos brancos aparecerem. Muito pelo contrário, isso é visto como um sinal de amadurecimento. Ao inverso, para as mulheres é visto como perda da juventude; o fato de a mulher não ser mais jovem e de não poder aparentar isso. Como se de alguma forma devesse negar todos os sinais de idade, do envelhecimento natural de seu corpo. Ora, os cabelos brancos não deveriam ser sinal de perda da beleza. São apenas um processo natural do corpo.

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Já observei também pessoas falando sobre como não pintar os cabelos remete a desleixo. Mas veja bem, a pessoa apenas não coloca uma química em seu cabelo e não esconde os sinais do seu corpo.

Esse tipo de norma que estabelece que a mulher deve estar sempre produzida, com seu cabelo impecável, cria uma regulação sobre o corpo da mulher. Focault, em seu livro "Vigiar e Punir", fala sobre o olhar censurador, que é quando não estamos na norma e muitas pessoas nos repreendem com seu olhar. Se você, que está lendo este texto, possui cabelos brancos, sabe do que estou falando. Muitas vezes, caminhando com minha esposa na rua, noto que as mulheres olham para o cabelo dela com um olhar reprovador. Esse tipo de olhar é que busca colocar a pessoa de volta a uma norma; no caso, de um cabelo pintado, de uma mulher que quer esconder suas marcas.

Liberdade

Mulher branca de cabelos brancos abraçadas à escultura.

Como já disse em outros textos, a mulher ou qualquer outra pessoa deveria ser livre para poder pintar ou não seu cabelo. Isso é a diversidade, é a possibilidade de existir muitas variedades de cabelos sem que nenhum seja repreendido por um olhar de censura ou por outro qualquer ato.

Com certeza há um padrão de beleza que a mídia busca nos empurrar. Mas esse padrão sempre muda com o passar do tempo. Basta que observemos o modelo de beleza dos anos 80, 90 ou 2000. A cada época temos uma idealização do corpo feminino. Esse atravessamento faz com que tenhamos muitas normas que as mulheres precisam cumprir. Podemos pensar em depilação, sobrancelha, magreza estética, lábios e na cor do cabelo.

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Como homem, nunca tive que passar por nenhuma pressão por causa de minha aparência. Ninguém nunca me disse que precisa cortar o cabelo, pintá-lo ou então deixar crescer. Essa nunca foi uma pauta em minha vida. Mas quando estou com minha esposa na presença de amigos e familiares, vejo o quanto o aparecimento dos cabelos brancos incomoda as pessoas. Os meus cabelos brancos ninguém vê. Há, então, essa norma, essa regra que a convoca para que pinte, para que escolha uma cor que não seja a natural. Veja, não há problema nenhum em pintar, mas seria bom que também não existisse problema nenhum em não pintar.

A idealização e a sexualização do corpo feminino traz sofrimento às mulheres. Como homem, não posso falar sobre como essa normalização a afeta ou afeta você, cara leitora. Vejo apenas o que me relatam, pois não tenho ideia de como é passar por essas situações.

Coragem

Mulher branca de cabelos grisalhos num carro.

Mesmo assim, creio que a coragem é o que devemos ter como guia. Coragem para poder fazer suas escolhas de como quer configurar seu corpo, de como quer escolher suas roupas, seu cabelo e sua aparência como um todo.

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Que a coragem se torne nosso guia para expressarmos o corpo da maneira como queremos, mesmo que a censura surja no olhar do outro. Pois, afinal, o outro não vive a nossa vida. Somos nós que a vivemos a todo instante com nossas escolhas e modos de viver.

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Erickson Rosa

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Psicólogo clínico laureado pela PUCRS. Atende crianças, jovens e adultos. Palestrante sobre a temática do inconsciente.