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por Hellen Reis Mourao

Cinderela, uma história de superação

Um dos contos de fadas mais popular da humanidade, Cinderela ou Gata Borralheira povoa o imaginário coletivo há séculos. A versão mais famosa é a do escritor francês Charles Perrault, de 1697, baseada em um conto italiano popular chamado La gatta cenerentola ("A gata borralheira"). Entretanto, a versão mais antiga é originária da China, por volta de 860 a.C. Outra versão famosa é a dos irmãos Grimm, mas nesta não há a figura da fada-madrinha.

Cinderela trata de uma estória de superação. A heroína vivencia o sofrimento inerente a rivalidade fraternal, onde ela é a filha preterida e humilhada. Mas que alcança a vitória sobre as irmãs que a maltrataram. Portanto, além de inveja e rivalidade, Cinderela fala de esperança.

Essa rivalidade é um tema universal. Toda criança experimenta esse sentimento em relação aos irmãos, independente do sexo. Caso não haja irmãos, a criança pode vivenciar isso em relação a primos ou amigos.

O fato é que a criança se sente preterida e sofre certa discriminação e humilhação. Atualmente nomeamos isso como bullying. O cerne, então, da estória de Cinderela é anseio natural da psique humana em ser reconhecida como especial e ser transportada a uma existência superior e transcendente. 

O lado ingênuo deve morrer, para que a força da superação nasça

Após a morte de sua mãe, ela passa a viver com a madrasta e suas duas filhas. O pai é um ser ausente que não se manifesta em favor de sua filha. Portanto, aqui temos um problema de unilateralidade. A figura masculina é fraca e incapaz de protegê-la.

Esse é um momento critico na vida das crianças, onde há a perda do paraíso e a criança perde a identificação com as figuras parentais. Os pais são vistos com seres imperfeitos e nesse instante começa a criação do ego, por meio do choque e do conflito.

Cinderela passa então a lavar, passar e cozinhar para a madrasta e as irmãs. Ela também passa a dormir entre as cinzas. As cinzas representam uma humilhação e uma descida de classe social. Mas também simbolizam a contrição, a humildade e a operação alquímica mortificatio.

Isso significa que o aspecto ingênuo e infantil da psique de Cinderela deve morrer, antes que ela tenha contato com seu masculino. Ela também passa a ter ajuda de animais e da arvore onde sua mãe está enterrada para poder ir ao baile. Isso significa que Cinderela passa a confiar em aspectos do seu inconsciente ligados aos seus instintos e ao legado deixado pela Boa Mãe em sua psique. 

Cinderela vai três vezes ao baile, porém na ultima vez o príncipe, mandou que passassem piche na escadaria e, quando a moça passou, o sapato do pé esquerdo ficou grudado. O príncipe pegou o sapatinho: era pequenino, gracioso e todo de ouro. 

O ouro simboliza o Self, o si-mesmo, representando algo incorruptível. O sapato simboliza liberdade, pois ele que deixa nossos pés confortáveis e aquecidos para podermos ir aonde quisermos. O fato de as irmãs não conseguirem calçar os sapatos de Cinderela e ainda mutilarem a si mesmas, significa que ninguém pode viver a vida de outro sem se mutilar. O Self nos manda sempre aquilo que devemos viver, a porção que nos cabe e que é só nossa.

O final nós conhecemos. Cinderela alcança sua redenção e se casa com o príncipe e as irmãs malvadas ficam cegas ao terem seus olhos furados por pombos. E Cinderela encontra no externo o reconhecimento que não tinha em seu próprio lar.

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Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.