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por Hellen Reis Mourao

A história da princesa Tiana em "A Princesa e o sapo"

A “Princesa e o sapo” é uma animação da Disney de 2009, baseada no conto de “O Príncipe Sapo”, dos irmãos Grimm. O filme conta a história de uma moça negra que vive em Nova Orleans, Estados Unidos, na década de 1920. Em termos de animação essa se trata da mais contemporânea história de princesas, pois ela não vem da realeza. Sua família é pobre e ela precisa realizar dois turnos de trabalho como garçonete para guardar dinheiro visando a realização do seu sonho: montar um restaurante.

Uma mudança radical em relação ao original, que conta a história de uma princesa mimada que conhece um sapo após deixar sua bola de ouro cair na lagoa de seu palácio.

Na animação é fácil gostar e se identificar com Tiana, pois ela simboliza a luta da mulher pela inserção no mercado de trabalho. É importante notar que a mãe da moça deseja que ela se case, mas seu sonho (que veio de uma inspiração de seu pai) é abrir um restaurante onde as pessoas fizessem fila para experimentar a sua comida.

 

Essa é uma mudança significativa que mostra que a criatividade e o papel da mulher não pode se limitar apenas ao papel de esposa e cuidadora da casa e dos filhos. A mulher deve fazer com que sua força de vontade, objetividade e capacidade de atuação sejam forças úteis em suas vidas. Entretanto, isso não deve ocorrer à custa de sua feminilidade. Ela deve reconhecer que ela não é igual ao homem, e que ela é uma mulher e que deve ser assim e não se rebaixar, nem se sentir superior.

E Tiana em sua jornada consegue desenvolver seu lado masculino sem perder sua feminilidade. Tanto que ao final, esse masculino desenvolvido a auxilia em seu desejo mais profundo. Ela se mantém feminina e consegue desenvolver e ser apoiada por esse aspecto masculino.

Nova Orleans é a cidade mais populosa do estado da Louisiana nos Estados Unidos. E no final do século XIX era o grande mercado escravocrata americano, sendo a Louisiana um dos últimos estados onde a abolição da escravatura aconteceu. Ou seja, o filme também é uma sutil crítica a essa história do estado americano.

E a animação ilustra o cotidiano de muitas moças negras da época, cumprindo longas jornadas de trabalho para poder levar uma vida que fosse um pouco confortável.

Podemos até afirmar que a mulher negra foi de certa forma pioneira na inserção da mulher no mercado de trabalho, uma vez que elas começaram antes da mulher branca. De certa forma, então, devemos a mulher negra a nossa inserção no mercado antes dominado pelos homens.

Quando o filme começa vemos que Tiana tem uma relação bastante intensa com pai e, após a sua morte, ela ainda quer realizar o sonho que eles idealizaram juntos. De modo geral, o animus na mulher se desenvolve a partir da sua experiência com o pai pessoal.

Após a morte do pai, Tiana intensifica a relação com a mãe. O fato de ter uma mãe mostra que a moça não possui insegurança em relação a sua feminilidade. Entretanto ela renega qualquer tipo de relacionamento e não se permite qualquer tipo de prazer (como sair com os amigos). E são esses aspectos que ela vai resgatar durante a sua jornada.

 

A mãe de Tiana trabalha na casa de um homem muito rico com uma filha mimada, Charlotte, que se torna a melhor amiga da protagonista. Charlotte pode se interpretada como a princesa do conto original, que não tinha mãe e era a filhinha do papai. Ela representa uma dimensão sufocada em Tiana. Isto é, a vaidade, o lado fútil e também o lado que quer se casar.

A rica menina é o aspecto sombrio de Tiana. Ela mostra, que apesar de trabalhar ela também ainda é a filhinha do papai, que ainda não amadureceu para um relacionamento.

Quando uma mulher se coloca no papel de “eterna filhinha do papai”, nenhum homem estará à altura de se casar com ela. Nenhum vai satisfazer seus  desejos insaciáveis como o papai.
E é ai que entra o príncipe Naveen.

Naveen é um príncipe imperfeito! Sedutor, mulherengo e sem compromisso com o trabalho. Um “bon vivant”. Por essa razão seus pais o deserdaram e ele agora é pobre. Ou seja, ele é extremamente infantil! Entretanto ele é um príncipe muito mais humano do que a maioria dos que vemos nos contos de fada. Ao invés de salvá-la ele a coloca em várias enrascadas. E ele pouco tem a contribuir para a realização do sonho de Tiana. Somente ao final quando há transformação de sua personalidade.

Naveen busca uma relação por interesse. E ele vê essa possibilidade com Charlotte, entretanto um bruxo atrapalha seus planos e o transforma em sapo.

Assim como o conto, Naveen pede um beijo a Tiana, pensando que ela é uma princesa. Ele promete a ela, em troca da volta a forma humana, o dinheiro para o restaurante. Mas assim que o beija é ela que se transforma em sapinha.

Não há amor a primeira vista. Ambos buscam a realização de seus intentos e sonhos. A relação deles se constrói ao longo do tempo, quando ambos vão conhecendo o lado bom de cada um.

O sapo é um animal que causa repulsa. Representa abundância, prosperidade, boa sorte, coragem e também a bruxaria e a morte.

Tiana se rebaixa a sua pior condição. Seu ego é tomado pelos seus aspectos sombrios e asquerosos. Mas ela necessita desse confronto para a ampliação de sua consciência. O sapo quando morre, fica negro e entra em estado de putrefação, enchendo-se de seu próprio veneno. Ou seja, Tiana prova de seu próprio veneno tendo que desistir parcialmente de seu sonho.

 

Naveen possui aspectos ignorados pela personalidade de Tiana. Ele representa o prazer que ela não se permite e mostra a unilateralidade de sua vida. São aspectos ignorados que precisam ser trazidos a consciência e implementados a realidade.

O casal, ao cruzar a floresta e o pântano da Louisiana, conhecem o crocodilo Louis, um grande músico que sonha tocar para uma platéia, e Ray, um romântico e apaixonado pirilampo, que sonha com uma estrela distante. Juntos, eles encontram uma feiticeira, Mama Odie, que vive nas profundezas do pântano, sendo que ela é a única que pode ajudar a torná-los humanos novamente.

Mama pode ser considerada um símbolo da Grande Mãe, uma espécie de Baba Yaga. Ela é cega e possui uma serpente, animal associado às deusas ctônicas como Hécate e também a Asclépio, deus grego da cura, da medicina e da sabedoria.

Ou seja, ela possui o veneno, mas também a cura e pode ser entendida como um símbolo do Self feminino de Tiana.

Ela diz aos dois que somente com um beijo em uma verdadeira princesa Naveen poderá voltar a forma humana e Tiana também. Entretanto ela sabe que somente o amor é parte da magia. Sendo ele o responsável pela transformação e mudança na vida das pessoas.

O amor nos faz conhecer os recônditos da nossa alma e nosso ser mais profundo. Naveen por amor a Tiana descobre outra dimensão do seu ser e uma grandeza de espírito. Ele descobre que a verdadeira riqueza não está no dinheiro. E Tiana descobre que precisa de mais prazer em sua vida e que isso não é mal, e que ela pode se relacionar sem perder de vista seus sonhos e sua individualidade.

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Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.