por Hellen Reis Mourao

A história da Bela e a Fera

A Bela e a Fera é um tradicional conto de fadas francês. Originalmente escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot, A Dama de Villeneuve. No entanto, tornou-se mais conhecido em sua versão de 1756, de Jeanne-Marie LePrince de Beaumont, que resumiu e modificou a obra de Villeneuve.

A versão para os cinemas desse conto, apresenta algumas modificações em relação ao original, que conta a história da filha mais nova de um rico mercador - que tinha três filhas e três filhos - porém, enquanto as filhas mais velhas gostavam de ostentar luxo, de festas e lindos vestidos, a mais nova, que todos chamavam Bela, era humilde, gentil, e generosa, gostava de leitura e tratava bem as pessoas.

Já na animação de 1991 (que se passa na França do século XVIII), Bela vem de origem humilde e é filha única de um excêntrico inventor, que os aldeões consideram louco.

O filme mantém a humildade da moça e seu gosto pela leitura, mas acrescenta o conflito vivido por uma mulher inteligente e que quer seguir seu coração ao invés dos ditames da sociedade, que lhe diz que ler é inapropriado a ela. Para os aldeões a mulher serve apenas para cuidar do marido e ter filhos.

Nos contos de fadas geralmente o pai da heroína é um rei ou conde, alguém da alta sociedade, e geralmente ele deve ser substituído. O fato do pai de Bela ser uma figura comum mostra algo inusitado. Ele não é um rei que precisa ser substituído, mas é uma figura a frente do seu tempo (ele cria uma máquina de cortar lenha), trazendo alguns aspectos do Deus Mercúrio, com sua inteligência e astúcia.

Isso mostra que a solução do conflito se origina de aspectos desprezados pela consciência coletiva. Esses aspectos são justamente a leitura, a cultura, a capacidade de refletir sobre a vida e o mundo, e o uso da imaginação. Hoje com a evolução da tecnologia perdemos muito o contato com a leitura. As informações chegam de forma fácil e rápida, mas prejudica o uso da imaginação.

Além disso, nosso ensino hoje se tornou massificado. As escolas e universidades não estimulam o pensamento e a reflexão próprios. As crianças aprendem o “decoreba” e são estimuladas a pensar apenas em passar no vestibular e ter um diploma.





















A função pensamento se tornou rígida, petrificada e é necessário olhar para o oposto à função sentimento para uma renovação na consciência coletiva. Pois uma mulher inteligente não vive em isolamento social e nem precisa ser um fracasso em seus relacionamentos.
Maurice, o pai de Bela, vai a uma feira de invenções e ao pegar um atalho acaba no castelo da Fera que o mantém em cativeiro. Bela descobre, vai até lá e faz um trato com a Fera, se tornando prisioneira no lugar do pai. Nos contos de fadas tem o tema comum do pai que entrega ou vende a filha a um monstro ou demônio. Isso mostra o pai que não tem uma relação apropriada com seus próprios sentimentos, e como isso prejudica sua relação com a filha e o desenvolvimento da personalidade dela. Em função do seu intelecto muito desenvolvido ele pode se fartar de brincar e estabelecer um laço afetivo com ela. E assim ela herda um animus monstruoso ou demoníaco, uma vez que o animus na mulher se desenvolve a partir da experiência com o pai pessoal.

Além disso, o fato da heroína ter mãe mostra uma fraqueza e incerteza sobre a feminilidade dela, o que a deixa suscetível a dominação pelo animus.

No filme então vemos que Bela desenvolveu sua inteligência e independência, o que foi bastante positivo, contudo os contos de fadas mostram que quando uma atitude da consciência se torna muito desenvolvida ela trava o desenvolvimento da personalidade e outros aspectos devem ser encarados e desenvolvidos.

Bela, no filme, vai enfrentar justamente esse “monstro” da intelectualidade unilateral, senão ela pode se tornar igual ao seu pai: alguém muito inteligente, mas que não consegue progredir e se tornou pobre, ou seja, alguém com uma visão empobrecida e unilateral da vida.

No começo da animação vemos que a Fera era um príncipe jovem e rico, que foi enfeitiçado por uma velha mendiga que bateu a sua porta oferecendo-lhe uma rosa, em troca de abrigo. Por sentir repulsa o príncipe diz não e é então transformado em Fera, e ele só poderia ser redimido se aprendesse a amar alguém e ser amado em retorno, sendo que isso deveria acontecer antes de cair a ultima pétala da rosa.

O príncipe é justamente aquele que deve se tornar rei e trazer a renovação para a consciência coletiva, já a bruxa simboliza o feminino rejeitado.

Nos mitos e contos de fadas vemos que o feminino não aceita bem a rejeição. O feminino quer ser aceito, incluso e adorado e quando isso não ocorre seu aspecto sombrio vem à tona sob a forma de vingança. Exemplos disso: Hera em sua cólera devido as “escapadas” de Zeus se vingava das amantes e filhos bastardos; Demeter quando teve sua filha raptada por Hades se vingou trazendo a esterilidade a terra. Dessa forma podemos interpretar que a heroína Bela tem como função a de resgatar e humanizar esse feminino desprezado na consciência coletiva. Ela resgata Eros e a função sentimento.



















O desenvolvimento tecnológico (representado aqui pelo pai de Bela) que tanto nos auxiliou agora necessita diminuir, pois com ele também veio a exploração indevida da natureza, o que faz um grande estrago na psique coletiva. E é isso que a bruxa no conto vem reclamar, que a consciência olhe novamente para o feminino e a natureza que clama por atenção.
A rosa que está morrendo é uma flor associada à Afrodite, deusa do amor. Conforme Carl Jung, a rosa é em geral disposta em quatro raios, o que indica a quadratura do círculo, isto é, a união dos opostos. Isso significa que o amor é um grande aliado no processo de individuação, pois é a partir dele que pode ocorrer a união dos opostos: masculino e feminino.

É comum nos contos de fadas que a heroína se submeta a uma situação, suportando o sofrimento com paciência e aguardando o tempo certo para agir. Isso ocorre, pois ela não deve agir da mesma forma que seu animus e os aspectos femininos da sua psique que são inseguros, devido a falta da mãe, devem ser resgatados.

Em nossa sociedade que privilegia a ação, a extroversão e o sempre fazer algo, ter paciência e aprender a suportar e esperar algo é um feito realmente heróico.

Na animação, Bela mesmo a contragosto passa a cuidar da Fera e da casa e, ao conviver com a Fera, ela percebe que ele é sensível e realiza todas as suas vontades a despeito de sua aparência.

A redenção da Fera então é feita por meio do amor. De príncipe mimado, que não suportava ver a realidade da vida com seus aspectos mais feios (a feiúra da mendiga simboliza a morte e a destruição presentes na natureza), ele se descobre um ser sensível e capaz de amar.

Bela então sente saudades do pai e a Fera, por amor, permite que ela regresse para salvá-lo.
E ao voltar, diferentemente do conto, ela enfrenta não as irmãs invejosas, mas um pretendente, Gaston, que não aceita ser trocado. O que é bastante interessante. O voltar para a casa original significa uma regressão da libido ao inconsciente original. E no filme não há um feminino sombrio, mas um masculino.

Gaston representa as opiniões de um animus não diferenciado. É dele a frase: “Não é certo uma mulher ler. Logo ela começa a ter ideias ... a pensar”. Individualmente então, ele representa um caráter regressivo da mulher, uma opinião infundada e obsessiva. Ele não olha para os desejos dela, ele não a apoia em seus sonhos. Ela é apenas um objeto.

















Em termos coletivos, Gaston representa a opinião coletiva da época. Até hoje vemos que mulheres muito inteligentes são tachadas com algum estereótipo, e ainda hoje beleza e inteligência não são atributos que podem andar juntos em uma mulher. E nesse confronto ela descobre que ama a Fera de verdade, pois com ele Bela se sente incluída, vista e respeitada em seus desejos. Tudo o que o feminino busca.

A Fera e Gaston se enfrentam e ambos morrem. Dois pólos opostos se enfrentam. Ambos se odeiam, pois até então eram semelhantes. Ambos desprezaram o elemento feminino. Mas quem morre é o aspecto animal, hostil e assustador da Fera, e ele volta a ser um príncipe. Agora não mais mimado, mas um homem amadurecido que aceitou e integrou a morte e a feiúra em sua vida.
Ele se liberta do estado de filhinho da mamãe e o equilíbrio masculino e feminino é novamente estabelecido na consciência coletiva. E Bela pode exercer sua função intelectual e o uso da sua imaginação sem cair na armadilha de se tornar fria e calculista, ou seja, um monstro.

Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.